A HISTÓRIA DE LILITH


A História de Lilith surgiu de uma vontade de ampliar o universo que eu havia construído em A Filha de Gaia. Inicialmente, logo quando eu comecei a escrever esse livro, eu havia pensado A Filha de Gaia como uma história fechada. De certa forma, ela é. Porém, por outro lado, há alguns ganchos que eu pensei que poderia usá-los para construir uma história que fosse uma continuação em que eu pudesse trabalhar melhor aquele mundo enorme que eu havia criado e não queria desperdiçá-lo em um livro. Inclusive, foi a partir de A História de Lilith que o Mundo Mágico ganhou um nome próprio e passou a se chamar Aislin.

Quando escrevo um livro, eu sempre o envio para leitores beta, que são pessoas que leem o livro antes de ele ser lançado e me dão um feedback sobre aquela história, para que eu possa ter uma visão de leitor do meu livro e, se necessário, faça alguma alteração. Inclusive, falei sobre isso em um vídeo lá no canal (clique aqui para ver o vídeo). Foi durante esse processo que eu comecei a escrever A História de Lilith.

Vários dos meus leitores beta perguntaram sobre a continuação e me apontaram muitas coisas que eu poderia trabalhar em um segundo livro. E foi ai que eu entendi que, de fato, estava no caminho certo, que era uma história que tinha razões para ser contada.

Pensei em várias formas para trazer essa história e, então, em uma das revisões de A Filha de Gaia, encontrei um momento em particular que eu gostaria de trabalhar melhor. Havia uma personagem que tinha sido somente citada, mas que tinha uma história rica e pronta para ser explorada.



Lilith é uma personagem que existe no nosso mundo real. Na verdade não uma pessoa real, mas uma personagem, que já fez parte de várias histórias e que tem muitas nuances diferentes. Decidi, então, que era minha vez de contar a história dela, o meu jeito de vê-la, e apresentar algo totalmente diferente, mesclando o que já existe com a minha imaginação.

Para esse livro, como Lilith tem uma vertente religiosa, estudei a bíblia cristã e alguns livros que traziam representações diferentes dessa personagem. Pesquisei sobre diversas deusas pagãs que serviram de inspiração para a minha criação de Lilith e outros deuses que serviam como base para outros personagens.

Também decidi que, diferente de A Filha de Gaia que era um livro onde o externo era mais importante e a personagem principal era um instrumento para transformações externas, A História de Lilith seria uma viagem para dentro, uma descoberta interna da personagem. Nesse processo, inclusive, descobri que, para mim, esse tipo de história é mais difícil de escrever, mas também é muito mais reveladora.


SINOPSE

A História de Lilith é um romance que acompanha a história de Lilith, filha de Aurora. Essa é a continuação do livro A Filha de Gaia. A protagonista inicia uma viagem interna, tentando buscar quem ela é, ao mesmo tempo que precisa decidir sobre seu futuro e cumprir seu destino.

"Ela respirou profundamente, tentando espantar aquela sensação angustiante que sentia. Todo ano era sempre a primeira vez. Mas, desta vez, seria diferente, pois seria a última".


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A ILHA DA CAVEIRA



Na época que eu estava escrevendo A Filha de Gaia, eu tive a ideia de ampliar o universo da história do conto A princesa e o pirata (o último conto do meu primeiro livro, Contos do Mundo Mágico). É uma das minhas histórias preferidas e achei que seria algo interessante revisitá-la.

Pra quem já leu A princesa e o pirata (não vou dar spoiler), tem um personagem que passa quatro anos longe. Resolvi, então, contar o que havia acontecido com ele durante esse tempo e aproveitar para contar a história na visão desse personagem em A Ilha da Caveira.

Porém, o foco que eu queria dar a este livro era algo bem diferente de tudo o que eu tinha feito até ali. Além disso, eu estava em um momento da minha carreira como escritora no qual eu havia desenvolvido meu processo de escrita. Nesse momento eu não só começava a escrever e ia aparando as arrestas e mudando a história várias vezes.

Então, eu comprei livros sobre piratas, estudei sobre as ilhas do Caribe, sobre navegações, geografia, história e tudo o que eu podia usar como base para essa história, que se passaria em uma ilha fictícia, no Caribe, e traria piratas que realmente existiram e outros apenas inspirados nesses piratas reais.

Depois disso, fiz o background da história e comecei a construir aquele que seria o meu primeiro livro de aventura que, de certa forma, me deu base para escrever Etérea, que é um misto de fantasia e aventura.

Essa foi uma história que me desafiou em todos os sentidos. Um deles foi o fato de que eu cheguei à conclusão que eu não sabia escrever cenas de ação. Era algo que eu não tinha desenvolvido nos livros anteriores. Inclusive, depois da prática escrevendo essas cenas, eu decidi modificar algumas passagens de A Filha de Gaia e, além disso, incluir uma cena de batalha à esse livro.

Pode parecer que não, mas A Ilha da Caveira e A Filha de Gaia estão intimamente ligados, justamente porque foram gerados juntos.


SINOPSE

Johnathan McGrandon é um jovem camponês que foi mandado para um combate contra piratas que chegavam à costa do Reino de Além-Mar. Porém, tudo é parte de um terrível plano do Chefe do Exército Real para tomar o reino para si.
Piratas, tesouros escondidos, viagens em alto-mar e grandes batalhas. Aventura e emoção não faltam nessa viagem inesperada a bordo do Dragão, o maior e mais famoso navio pirata de todos os tempos, com diversas histórias ancoradas no misterioso passado de seu Capitão: Edward Fenton.
Enfrentado mares revoltos, encanto de sereias e o mais terrível e temível bucaneiro de todos os mares, John enfim chegará a mais famosa ilha dos bons piratas e descobrirá muito mais do que jamais pôde imaginar sobre sua própria história.


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A FILHA DE GAIA



Eu tinha dezoito anos quando comecei a escrever A Filha de Gaia. Durante uma viagem de ônibus de Natal, a cidade onde eu morava, e João Pessoa, na Paraíba, eu tive um sonho com uma menina loira de olhos azuis, que vinha avisar que a terra estava em seu limite e que nós, humanos, iríamos destruir nossa morada e precisávamos começar a fazer algo para salvar o planeta.

Sonhos, pra mim, são de onde vem a maior parte das ideias para os meus livros. Foi de onde veio a ideia do título de Contos do Mundo Mágico, como eu falei na postagem anterior, e foi também de onde veio a inspiração, se é que posso chamar assim, para escrever A Filha de Gaia.

Eu despertei do sono, dentro do ônibus de viagem, achando que aquele sonho havia sido algo muito real. Na época, já se falava muito em aquecimento global, em uma onda gigante que devastaria as cidades costeiras e todo ano tinha uma nova previsão de fim do mundo que nunca se realizava (afinal, estamos todos aqui ainda). Acho que talvez muito disso possa ter se misturado na minha cabeça e criado esse sonho. Pelo menos é isso que o meu eu psicóloga diz.

A questão é que tive esse sonho, acordei e tirei da mochila um caderno e uma caneta, uma dupla que eu passaria a levar sempre comigo a partir daquele dia, e comecei a escrever ideias despertadas pelo sonho que vinham em turbilhão. Eram ideias soltas, mas que faziam algum sentido na minha cabeça. O nome da personagem principal, Aurora, foi uma das primeiras coisas que me veio. Não lembro se a menina do sonho falou seu nome em algum momento, mas, não sei porque, esse foi o primeiro nome que surgiu na minha mente quando pensei nela.

Escrevi sobre portais para outro mundo, os seres que viviam lá e sobre uma guerra que estava se formando silenciosamente entre os habitantes desse mundo e os seres humanos. Mais personagens vieram à minha mente: Um mago, três feiticeiras, uma fada e um pássaro azul. Quando cheguei em João Pessoa, comecei a criar cenários, outros personagens e pensar em como seria essa história.


De forma natural e sem notar o que eu estava fazendo, eu comecei a criar algo que, mais tarde, iria se tornar a primeira etapa no meu processo de construção de todos os meus livros: a estrutura da história. É algo que faço até hoje. Antes de começar, de fato, a escrever uma história, eu crio o background dela. Crio os cenários da forma mais detalhista possível (o que envolve pensar no clima, vegetação, quem vive ali, etc), os personagens (com suas características físicas e sua personalidade) e o esqueleto da história, o que vai acontecer no início, no meio e no fim.

Não lembro ao certo, mas levei algum tempo, talvez um ano, desse ponto de construção da estrutura até, de fato, começar a escrever o livro. E foram dois anos até o ponto final, pois ao mesmo tempo que eu escrevia A Filha de Gaia eu estava escrevendo meu terceiro livro: A Ilha da Caveira. Quando terminei de escrever A Filha de Gaia, foi na época do lançamento do meu primeiro livro, Contos do Mundo Mágico. Foi quando eu pensei em relacionar meus livros, de certa forma.

Eu sempre gostei de procurar referências e Easter Eggs em livros, séries e filmes e resolvi fazer isso também nos meus livros. Em A Filha de Gaia, o prólogo é uma carta escrita por uma personagem de Contos do Mundo Mágico.

Entre o lançamento do meu primeiro e do meu segundo livro foram quatro anos. Meu terceiro livro, A Ilha da Caveira, era para ter sido lançado no mesmo dia, mas acabou saindo poucos dias antes. Porém, ainda o considero o terceiro, pois penso pela ordem de criação e não de lançamento.

Quando lancei A Filha de Gaia, eu já estava escrevendo sua continuação, A História de Lilith. A capa dos dois livros se completam. Foram pensadas para isso. Como eu já tinha uma continuação quase pronta e ela teriam nomes diferentes, resolvi que seria bom ter um elemento de ligação para fazer uma conexão visual entre as duas. Então pedi para que a ilustradora fizesse um rosto completo e usasse somente um lado para esta capa. E, quando eu fosse lançar A História de Lilith, usaríamos o outro lado.



SINOPSE DO LIVRO

Há muito tempo, quando a floresta ainda era jovem, viviam em harmonia os homens, os animais e as criaturas mágicas. Eles protegiam uns aos outros e dormiam à sombra de enormes árvores. Mas os seres humanos buscaram o poder, ficaram violentos. E o Mundo Mágico e o Mundo dos Homens, então, se separaram. Por muitas Eras, houve tentativas de unir novamente os dois mundos. Todas em vão. O Mundo dos Homens se tornou autodestrutivo com o passar do tempo. Agora, os habitantes do Mundo Mágico resolveram fazer mais uma tentativa. Mas, talvez, os humanos tenham se esquecido de como ouvir a magia. Essa história não aconteceu tempos e tempos atrás. Ela vem sendo moldada nas Eras. E o que será contado aqui acontecerá num futuro próximo. Mas logo o planeta e até os imortais irão esquecer. Contudo, alguém lembrará.


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CONTOS DO MUNDO MÁGICO



SOBRE O MEU PRIMEIRO LIVRO E PORQUE EU COMECEI A ESCREVER


Comecei a escrever Contos do Mundo Mágico quando eu tinha doze anos, inspirada pelo primeiro livro da série Harry Potter, o qual eu havia lido recentemente. Mas minha história com os livros começou, na verdade, no cinema. Eu fui assistir à um filme (que por toda a minha vida achei que havia sido Sharkboy e Lavagirl, mas recentemente descobri que esse filme só havia sido lançado anos depois. Então o filme em questão eu não me lembro qual era) e, como em toda sessão de cinema, passaram vários trailers. Entre eles, o trailer de Harry Potter e a Pedra Filosofal.

O ano era 2001. O livro que inspirava o filme havia sido lançado em 1997, mas só agora estava começando a se tornar um fenômeno no Brasil. O cinema, inclusive, iria ajudar bastante nisso. Eu nunca tinha ouvido falar em Harry Potter, mas a história do menino bruxo me chamou a atenção. Quando cheguei em casa, voltando do cinema, eu resolvi procurar sobre o filme, que seria lançado alguns meses depois. Foi então que descobri que o filme Harry Potter e a Pedra Filosofal era baseado em um livro homônimo, da autora inglesa J. K. Rowling. E que não havia só um, mas quatro livros já publicados.

Engraçado é que antes de Harry Potter eu nem mesmo gostava de ler. Na verdade, o fazia por obrigação quando precisava ler os livros paradidáticos da escola. Porém, resolvi fazer uma tentativa e ler Harry Potter e a Pedra Filosofal. E, como boa curiosa que sou, queria fazer isso antes de o filme ser lançado no cinema.


Desculpem eu estar falando tanto sobre Harry Potter, mas é que essa história foi, não só essencial, mas determinante para eu começar a escrever e hoje ter quatro livros publicados e me preparando para o lançamento do quinto. Mas continuando, onde estávamos mesmo? Ah sim...

Na frente da casa da minha avó moravam dois amigos meus, Lívia e Breno, que eram irmãos e todos nós brincávamos nos finais de semana quando eu ia visitar minha avó junto com outras crianças da rua. Falando sobre Harry Potter com meus amigos, descobri que Breno já tinha lido os livros e ele perguntou se eu não queria comprar dele, a 5 reais cada, menos o quarto porque ele ainda estava lendo. Essas crianças empreendedoras e desapegadas... Admiro!

Obviamente, como na época meu dinheiro vinha da fonte "mãe", precisei perguntar a ela se podia comprar os livros do meu amigo. Eu tinha onze anos e Breno era uns dois (talvez três) anos mais novo que eu. E já tava fazendo dinheiro vendendo seus livros usados!

Como minha mãe sabia que eu não era muito fã de livros nessa época, ela disse que eu poderia comprar o primeiro e, se eu gostasse, compraria os outros, um de cada vez. Eu aceitei e comprei Harry Potter e a Pedra Filosofal de Breno, por 5 reais. Com certeza o melhor investimento que fiz na minha vida!

Só que pra uma pessoa que detestava ler, um livro de mais de 200 páginas parecia algo como um dos livros de George R. R. Martin. E o que aconteceu foi que eu não passei do primeiro capítulo na minha primeira tentativa. Eu detestei o livro e não sabia como cada vez mais pessoas ao meu redor falavam, animadas, sobre essa história.

Eu não entendia como todos pareciam tão apaixonados pela história daquele bruxinho e resolvi tentar novamente. De novo, parei. Foi somente na quarta tentativa que eu, finalmente, entendi o quão maravilhosa era aquela história. Terminei de ler o primeiro livro faltando um mês para a estréia do filme e eu já estava completamente apaixonada.

Obviamente, comprei A Câmara Secreta e O Prisioneiro de Azkaban do meu amigo, e como devorei os livros rapidamente, ele ainda não tinha terminado o quarto livro pra me vender. Então esse eu comprei novo, na livraria, pois não queria esperar.

Aos onze anos eu li uma história que mudou a minha vida. Aos onze anos eu comecei a ler por prazer. Aos onze anos eu desejei escrever uma história tão mágica quanto àquela que eu havia lido.

Durante uma viagem para a praia, aos doze anos, eu comecei a rabiscar o que seria meu primeiro conto. Primeiro, ele se chamaria somente Por trás da lenda, mas logo viviam continuações da história e Por trás da lenda se tornaria uma série de quatro contos sobre seres mágicos, que se passavam na Irlanda. Logo, meu caderno ficou cheio de histórias e fui preenchendo outros cadernos.

Um dia, eu soube de um Concurso Cultural na minha escola. Pensei e repensei e resolvi me inscrever no fim do prazo. Precisava ser algo mais breve, de poucas páginas. Como os contos de Por trás da lenda faziam parte de uma série, na minha cabeça eles só funcionavam juntos. Então resolvi escrever outra coisa. Era uma história sobre um grupo de crianças e um fantasma chamada O casarão assombrado de Wepsteps, algo bem diferente do que eu costumava escrever. Esse conto ganhou em segundo lugar o concurso.

Também teve uma vez que eu e meus primos estávamos na casa de Lívia e Breno (era onde nós normalmente nos reuníamos porque eles tinham dois vídeo games e vários jogos, entre eles Mario World, meu preferido). Ai faltou energia e a gente ficou sem nada pra fazer. Não dava pra ir brincar na rua (isso era possível nessa época) porque ainda era cedo e tinham muitos carros passando. Então sentamos na varanda da casa e, não lembro como ou por qual motivo, eu resolvi criar uma história. Assim nasceu A Floresta, mais um conto sobre seres mágicos, porém protagonizado por um grupo de crianças (como meus amigos e eu).

A última história desse livro, A princesa e o pirata, nasceu logo depois de A Floresta. É uma história clichê sobre um camponês que se apaixona por uma princesa. Mas tudo que tem piratas no meio se torna muito mais interessante. E não é diferente com essa história, que tem um super Plot Twist no meio dela. Talvez por ter sido a última história desse livro e eu já ter mais prática na escrita, eu posso dizer que é o meu conto preferido de Contos do Mundo Mágico. Não é por menos que A princesa e o pirata ganhou um Spin Off, o livro A Ilha da Caveira, que escrevi somente anos depois. Falaremos dele em breve aqui no blog.

Contos do Mundo Mágico foi um livro que escrevi entre meus doze e dezoito anos. Comecei a escrever as histórias que estão nele aos doze e o processo de criação delas durou até meus quatorze ou quinze anos. Depois disso, até os dezoito, editei, melhorei, mudei nomes de personagens e decidi que eram aqueles contos, de todos que eu tinha escrito nesse período, os que fariam parte do meu primeiro livro.

Como as histórias são muito diferentes umas das outras, tive dificuldades em encontrar um nome que traduzisse o livro como um todo. Pensei em várias opções, mas nada parecia bom. Foi então que, uma noite, sonhei com minha bisavó (mãe do meu avô) e no sonho ela me disse o nome Contos do Mundo Mágico. Acordei com a certeza de que esse seria o nome do meu primeiro livro.


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ETÉREA




SINOPSE


Aether é uma jovem sem passado. Ela foi encontrada pela sua família adotiva quando ainda era criança e não lembra de nada sobre quem é, de onde vem ou mesmo como foi parar na enorme clareira onde foi achada. Quando sonhos cada vez mais insistentes passam a assombrá-la, Aether entende que precisa buscar por sua memórias. Ao iniciar uma jornada para chegar ao seu passado, ela encontra Garin, um misterioso rapaz que decide juntar-se a Aether na viagem. Contudo, ela pode acabar descobrindo que esquecer se passado pode ter sido a melhor coisa que podia ter lhe acontecido.

PRÓLOGO

Um vento gélido. Alguma coisa que ardia nas costas, algo úmido. Era dali que vinha a terrível queimação. E dor. Dor por toda parte. Aos poucos, ela começou a se perceber. Primeiro a mão, que estava em algum lugar daquele corpo. Moveu lentamente os dedos e sentiu dificuldade ao fazer isso. Tentou mover outra parte de seu corpo, mas a dor lhe impedia.
            Ela tentou abrir os olhos, devagar. Uma luz ofuscante a fez fechá-los novamente. Aquilo era como recuperar todos os sentidos de uma só vez, como ver-se entregue ao caos. Um zunido insistente, o cheiro de terra e grama e a percepção do orvalho nas suas costas. Abriu os olhos novamente, agora com mais cautela.

Onde estou?

            A pergunta surgiu em sua mente. E, por mais que tentasse, ela não conseguia encontrar uma resposta. Pestanejou algumas vezes e respirou profundamente. Cada músculo do seu corpo doeu. Tentou virar-se de lado. E novamente a dor a impediu. Olhou para seu braço pálido que estava na lateral de sua cabeça. Olhou a mão iluminada pelos tímidos raios de sol. As cores iam vagarosamente se definindo.

Quem sou?

            Mais uma pergunta que não conseguia responder. Tentou apoiar-se em seus braços. Com muito esforço, conseguiu erguer-se minimamente. Olhou em volta. O céu era de um azul claro, sem sombra de nuvens. O relvado que lhe cercava pareceu infinito. Algumas margaridas pontilhavam a grama baixa.
            Ninguém à vista.
            Tentou puxar pelas lembranças, trazer de volta memórias. Algum nome, um rosto, qualquer coisa... Nada. Sentiu uma fisgada nas costas, no lugar da ardência, como se algo lhe espetasse a carne. Deitou-se novamente na grama e levou uma mão ao local dolorido. Era áspero, escamoso. Ela pensava em como sairia daquela situação. E mais uma vez, não obtinha nenhuma resposta.
            Novamente, esforçou-se para levantar, apoiando as mãos nas laterais do seu corpo. Os músculos dos braços se queixaram. Trincou os dentes, enquanto os lábios soltavam abafados gemidos. Mesmo com a dor, conseguiu flexionar as pernas, apoiando-as no chão para que pudesse sentar-se. Arquejando com a dor e a ardência, esforçou-se para ver o que havia em suas costas.
            Uma pele vermelha e escamosa descia pelas suas costas nuas até o flanco direito. Aquela parte estava mais dolorida do que o resto de seu corpo e ardia muito. Ela começou a sentir frio. Precisava procurar um lugar para se abrigar. Não podia ficar ali.
Ainda trôpega, ficou de pé. Não fazia ideia de quem era, ou de como chegara ali. Baixou os olhos para olhar o corpo. Os braços e pernas, até mesmo os pés, nada lhe era familiar. Nem mesmo a consciência de ser uma criatura feminina sugeria-lhe alguma coisa. Essa sensação lhe angustiava.
Mais uma vez deu uma olhada ao seu redor. A clareira parecia não ter fim. E, então, percebeu uma fina linha mais escura ao fundo, bem longe.

É para lá que você precisa ir.

            Não chegou a se perguntar por quê. Havia falhado nas outras tentativas de achar respostas para suas perguntas. Só sabia que era isso que tinha que fazer. Mexeu-se com cuidado. Era como se nunca tivesse andado antes. Quase não conseguia manter o equilíbrio. Talvez fosse melhor se sentar novamente.

Vou ficar parada até alguém me encontrar.

Um pensamento reconfortante que, só por um momento, pareceu-lhe ser a coisa certa a fazer.

Ninguém vai aparecer. E talvez seja melhor assim.

            Concluiu após refletir melhor sobre aquela situação. Virou, então, o olhar para a linha escura e começou a andar, um passo atrás do outro, insegura. Ao redor dela, a grama ondeava molemente ao leve sopro do vento frio. Naquele nada em que sua mente estava mergulhada, no terror que a dominava, agora ela tinha um objetivo. E precisava alcançá-lo.

            Viu as árvores surgindo diante de si, cada vez mais altas, à medida que se aproximava. Observou-as como se fossem uma miragem. Estava exausta. As costas continuavam a arder. Seu corpo ainda doía. A grande bola amarela já tocava o horizonte e o céu explodia em tons de vermelho. Quando afinal chegou a tocar na casca áspera de uma árvore seca, não pôde evitar um sorriso de alívio. Ao menos entre as árvores poderia ficar mais protegida, assim esperava.
            Olhou para trás, para o caminho que tinha percorrido. Não estava em condições de quantificá-lo, nem tinha uma mínima noção do tempo que levara percorrendo-o. Aliás, não se lembrava de como se media o espaço ou como se marcava a passagem de tempo.
            Sentiu o cheiro de algo queimando. E viu, à frente, ainda um tanto distante, no meio da floresta, uma luz trêmula. Queria andar até lá, mas o cansaço a impedia. As pernas não tinham mais força suficiente. Foi quando ouviu algo se mexendo em meio à folhagem das plantas baixas. E enxergou um vulto vindo em sua direção.
            Estava cada vez com menos forças. Deixou-se escorregar ao longo do tronco da árvore na qual se apoiava. E não viu mais nada.




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