Degustação A ILHA DA CAVEIRA



Capítulo Primeiro – O Dragão

Em marcha, cinquenta homens do reino de Além-mar seguiam enfileirados pelo vilarejo, rumo à costa. Levavam consigo pesadas espadas de lâminas reluzentes e afiadas, apoiadas nos seus ombros direitos. Por onde passavam eram aplaudidos pelas suas famílias e amigos. E por garotos que sonhavam em, um dia, fazer parte do Exército Real. Mas o que essas pessoas não sabiam era que aqueles homens que viam não eram soldados e sim camponeses, como eles. Aqueles homens faziam parte de um plano terrível e estavam ali caminhando para a morte.
O homem que arquitetara o plano chamava-se Lucius. Ele era o chefe do Exército Real e o braço direito do Rei Camillo, mas sua sede de poder era tanta que ele não queria apenas ser um Duque, pois é o que era. Ele queria mais. Queria se apossar do Reino de Camillo. Uma noite ele descobriu que a princesa Rachel se encontrava às escondidas com um jovem camponês que trabalhava como jardineiro no palácio: Johnathan McGrandon.
Lucius queria ser Rei e para isso teria que se casar com a princesa. Então, precisava dar um fim ao camponês e tratou de arquitetar um plano para acabar com o namoro. Ele sabia que o Rei sempre fazia tudo o que a princesa queria e, se esta desejasse se casar com o camponês quando chegasse a idade, era isso que iria acontecer.
O Duque, então, pagou um grupo de piratas para atacar a costa do reino de Além-mar e avisou ao Rei que era preciso combatê-los. Conseguiu convencer Camillo a mandar apenas camponeses sem nenhuma noção de combate para a batalha e, entre eles, John. Lucius deu ordens bem claras aos que iam lutar: “Não voltem até que todos os piratas tenham sido derrotados”, e aos que ficariam na retaguarda, ou seja, seus soldados: “Nem pensem em ajudar os camponeses!”. O plano tinha tudo para dar certo. Contudo, por um golpe do destino, algo não planejado aconteceria.

Já dava para ver o mar agora. Mais uns quinze metros e chegariam aos barcos que os levariam até um navio ancorado, escondido perto de uma floresta conhecida como Floresta Negra. Ninguém entrava nela por medo e superstição. Os que se aventuravam a isso, quase nunca voltavam para contar a história.
Os barcos avançaram pelo mar, desviando das pedras. Ainda ao longe, dava para se ver a bandeira negra com uma caveira branca desenhada balançando com o vento. O mar estava calmo, praticamente sem ondas. O imenso navio surgiu detrás das pedras. Ele era, até mesmo, maior que os navios do reino. A água salgada o embalava como uma mãe faz com seu bebê. Parecia não haver ninguém a bordo.
Silêncio.
Os barcos ancoraram diante da imponência de um dragão entalhado na madeira da proa. Os camponeses jogaram cordas e começaram a subir para o convés, tentando fazer o mínimo de barulho possível. Quando o último pisou no navio, foi surpreendido pelos piratas, que haviam prendido seus companheiros.
Todos os cinquenta camponeses presos por apenas treze piratas. Talvez você queira saber como foi que os piratas fizeram isso. Simples. Primeiramente, os camponeses não tinham uma mínima noção de combate, apenas tinham uma vontade enorme de vencer seus inimigos e se tornarem reconhecidos como heróis em todo o Reino. Infelizmente, isso não bastava. Os piratas, por sua vez, eram ótimos na luta. Além disso, sabiam quando algo se aproximava deles. E isso lhes dava muitos pontos de vantagem. Sem contar com a astúcia.
Pants-Down Elmer, o pirata que ficava de vigia, no mastro, observou a aproximação dos barcos e logo tratou de avisar seu Capitão. Este por sua vez, mandou que toda a tripulação ficasse quieta, para que aqueles visitantes achassem que o navio estava vazio.
Escondidos em lugares estratégicos, os piratas esperaram os camponeses subirem a bordo. E então, capturaram um após o outro, em silêncio, amordaçando-os e os prendendo com cordas, tomando cuidado para não fazer qualquer barulho, pois os que ainda não estavam no navio não podiam perceber o plano.
A cena pode ser comparada com a de quando um leopardo aproxima-se, sorrateiro, de suas presas e só se mostra para elas e começa a correr quando já está bem perto.
Estratégia.
O fator surpresa deixou os piratas pelo menos dois passos à frente de seus oponentes.
- Sabem quem eu sou? – disse um homem mascarado, ao se aproximar dos prisioneiros.
- Fenton? – um camponês amedrontado arriscou um palpite.
- Certo! – disse o homem. Seus olhos azuis brilharam por trás da máscara negra que cobria a parte superior do seu rosto, até seu nariz. – Me chamo Edward Fenton. Posso saber como descobriram que eu estaria aqui?
- Duque Lucius. – disse outro camponês. – Ele nos mandou para cá!
- E sabem o que eu farei a vocês?
- Por favor, senhor, não nos mate! – disseram alguns.
- Não? E o que devo fazer a cinqüenta homens que invadem meu navio com esse intuito?
- Por favor, senhor! – os camponeses imploravam, apavorados. - Temos família!
- Meu jovem. – disse Fenton, apontando para um rapaz alto e magro amarrado junto aos outros. – O que acha que devo fazer? Matá-los?
- Não, senhor!
- Exatamente a resposta que eu esperava. Olhem bem... Se eu desse um último desejo a qualquer um de vocês tenho certeza que pediriam para não morrer. Estou certo?
- Não, senhor! – disse o mesmo rapaz.
- Não? – espantou-se Fenton.
- Não, senhor! – repetiu o garoto.
- Por que diz isso, garoto?
- Senhor, se me concedesse um último desejo eu pediria que não matasse esses homens e que fosse até o Reino de Além-mar e entregasse algo à alguém.
- Está falando sério garoto? – disse Fenton, ainda mais espantado.
- Sim, senhor! – falou o rapaz, sério, e Fentou o fitou por um momento. Os piratas olhavam espantados para Fenton e o rapaz. Ninguém nunca havia respondido ao seu Capitão algo que o mesmo não esperava ouvir.
Silêncio.
- Marujos! – disse o pirata, ainda atônito. – Levem nossos hóspedes aos seus aposentos no castelo de proa. Vocês são muitos e não vão ficar devidamente confortáveis, mas é o que posso fazer!
- O que vai fazer com a gente? – disse um camponês, ainda amedrontado.
- Meus caros, hoje começaremos uma longa viagem até a Ilha da Caveira.
- Vai nos matar lá?
- Quem aqui falou em matar? – disse Fenton. – Bem... Na verdade eu falei. Mas era uma brincadeira. Eu deixo isso para a Marinha Mercante ou a Marinha Real. Nós faremos uma viagem até a ilha dos piratas. Vocês terão mais explicações amanhã. Garoto! – Fenton chamou o jovem por quem simpatizara. – Estava falando realmente sério sobre seu desejo?
- Sim, senhor!
- Mas se desejasse não morrer você mesmo poderia levar o presente.
- Talvez não fosse a melhor coisa a fazer!
- Como se chama, garoto?
- John. Johnathan McGrandon, senhor.
- Bem... Johnathan. É melhor ir descansar como os outros. Quero meus novos marujos bem dispostos para amanhã.
- Sim, senhor! – disse John, sorrindo, e deixou o convés.

          A tarde foi se tornando noite. John olhou para o leme e viu Fenton. Ele estava sempre lá quando o sol se punha. Gostava de passar a noite navegando. Com os pés separados e as mãos nas malaguetas, ele manejava o timão com tanta facilidade que parecia fazer parte do navio. E o único pensamento de John foi de que Fenton havia nascido para navegar uma embarcação.
          Os ventos estavam soprando mais forte, guinando o Dragão. John olhou para a sombra do pirata se inclinando e seu braço movendo o timão, enquanto o navio serpenteava no meio das ondas. O Dragão se inclinou por causa de uma lufada de vento. O timão girou, os braços do condutor se curvaram como uma manivela e, com isso, o navio se estabilizou. Parecia que Fenton era a embarcação. Seu olhar desceu a barlavento da vela mestra. Ele desceu do leme e aproximou-se de John, que segurava um anel em suas mãos, sentando-se ao seu lado.
- Já esteve nas Índias, garoto?
- Não. – John respondeu.
- Mas já esteve no mar. – disse Fenton e o Dragão balançou em meio às ondas. – Dá para ver em você... O mar corre no seu sangue.
- Já estive no mediterrâneo e uma vez atravessei o canal com o meu pai quando ele trabalhava para uma companhia de navegação, isso é tudo.
-Foi mais longe do que muita gente. – falou o pirata como se relembrasse de uma cena engraçada. - Ora, já vi uma grande quantidade de homens atravessando poças no meio da rua e olhando para trás, a fim de ver a viagem que haviam feito. – Fenton parou de falar por um instante - Já a conhece há muito tempo? A dona do anel?
- A conheci quando era garoto e...
- Ora, você ainda é um garoto!
- Quando eu era mais novo, então. Fui trabalhar no castelo onde ela é princesa e nos apaixonamos. Mas desde a primeira vez que a vi senti que já a conhecia de toda a minha vida.
- E então teve de lutar contra nós e não deu o anel.
- Exatamente. Quando me lembrei do anel já era tarde. Estávamos muito longe do castelo para voltar.
- Posso perguntar onde o conseguiu?
- Era do meu avô. Ele me deu antes de morrer.
          Fenton virou-se para as velas. Então levantou-se e fez um gesto para que John o acompanhasse. Ele foi até um cesto de palha, que estava ao lado do mastro, e pegou duas espadas.
- Já empunhou uma espada? – disse o pirata. As duas espadas eram bem parecidas, exceto pelas empunhaduras: Em uma delas havia uma caveira e ossos cruzados. A outra tinha listras douradas em horizontal na parte superior.
- Só quando fomos lutar contra vocês na costa do reino. E mesmo assim nem cheguei a usar uma de verdade.
- Mas você é apenas um garoto! Aprende rápido.
- Preciso aprender a duelar com espadas para viver na Ilha da Caveira?
- Digamos que precisa aprender a duelar para ser um pirata!
- Eu serei um pirata? – falou John com uma ponta de excitação. - Navegarei com o senhor?
- Ora, garoto! Só os piratas vivem na ilha. – disse Fenton, jogando uma das espadas para John. – Agora eu vou atacar-lhe e você vai tentar se defender.
- Mas eu não sei... – começou John, mas antes que pudesse terminar sua frase, Fenton cortou o ar com a espada e foi em sua direção. O pirata parou o golpe com poucos centímetros acima da cabeça do garoto.
- Tente apenas se defender, está bem?
- Senhor... Eu não tenho a mínima idéia de como se usa isso!
- Sei que não. Apenas tente se defender.
          Fenton novamente atacou John com sua espada, mas, dessa vez, o garoto conseguiu se defender e as espadas produziram um som forte e agudo. Elas deslizaram uma sobre a outra e as lâminas soaram como se estivessem sendo amoladas. John tinha os movimentos elegantes e os reflexos rápidos, logo aprenderia.
Novamente Fenton atacou o garoto e este pulou para trás, pondo a espada em horizontal, próxima ao seu rosto.
- Não aproxime tanto assim do rosto, garoto.
- Sim, senhor!

          Não demorou muito até que John aprendesse a duelar. E rapidamente ficou quase tão bom quanto Fenton. Viver com os piratas, ajudar a navegar eram experiências que ele nunca sonharia em ter um dia. Ele aprendeu sobre a navegação e como era fantástica a vida no mar. No começo enjoara um pouco com todo aquele balanço do navio, mas havia se acostumado depois de uma semana à bordo do Dragão.
A Ilha da Caveira, para onde estavam indo, era uma ilha de porte médio, à sudoeste de Port Royal. Fenton havia mostrado um mapa aos camponeses onde estava traçada toda a rota do navio em linhas pontilhadas. Pegando carona com os ventos alísios, navegariam para o oeste, passando ao lado de Hispaniola e Port Royal até chegarem à ilha dos piratas. Ficariam sempre perto da costa para evitar conflito com ingleses, que viviam circulando pelo Mar do Caribe.
          John e Fenton se tornaram grandes amigos rapidamente. Para o pirata, o camponês era o filho que nunca tivera e para John, Fenton era como um segundo pai. John estava deitado em seu leito quando ouviu o som de uma garrafa se quebrando, junto à gargalhadas e uma música animada que tocava quase todas as noites no navio.
Sempre que podiam, os piratas faziam uma de suas festas e o que mais havia no Dragão era uma bebida de tom amarelado chamada rum. John nunca bebera na vida. Nem se quer participava das festas. As noites que não tinha que ficar de vigia, ficava deitado em seu leito pensando em Rachel. Será que algum dia voltaria ao Reino e poderia revê-la?
          Outra garrafa quebrou-se no convés. John levantou-se, andou até a porta e saiu de seu leito. Deixou o castelo de proa em direção ao convés. O barulho das vozes dos piratas aumentou em dez vezes.
- John! – gritou Fenton, pegando uma garrafa com o tal do rum. – Venha até aqui, garoto.
- Por que nunca vem às festas, filho? – disse um camponês, que há muito já havia virado um pirata.
- Não sei! Fico pensando um pouco... – começou John.
- Pensando em mulher, eu aposto! – disse um pirata barbudo, segurando outra garrafa de rum, a quem todos chamavam de Darius Candlemaster. - Esse é o remédio perfeito para você, garoto!
- Já bebeu rum, Johnathan? – perguntou Fenton.
- Não, senhor. Nem bebida alguma.
- Vejam só! – disse um camponês, que parecia estar mais pra lá do que pra cá. – O garoto não sabe aproveitar a vida!
- Tome um pouco, John. – disse Fenton, despejando o conteúdo da garrafa numa caneca. – Vire tudo de uma só vez!
            O rapaz pegou, inseguro, a caneca de um liquido amarelo-escuro. Ele encarou o rum por um segundo, o cheiro do álcool adentrava suas narinas, fazendo-as arder um pouco. Suspendeu a caneca e virou todo o conteúdo em sua boca. Um doce prazer desceu queimando em sua garganta até o peito. Uma ardência invadiu sua boca e tomou conta de sua língua, fazendo-a formigar. Sua cabeça parecia ter explodido em mil pedaços quando ele voltou a si. Seus olhos lacrimejaram e sua respiração acelerou um pouco. Ele olhou os piratas, e depois para o mastro. Tudo rodava. Então ele caiu sentado em uma cadeira. Todos olhavam para ele. Ou pelo menos parecia que olhavam.
- E então? – perguntou Fenton. – O que achou?
- Eu posso beber um pouco mais para responder? – disse John, rindo. As gargalhadas de piratas felizes ecoaram pelos oceanos.


COMPRE A ILHA DA CAVEIRA!

Degustação A FILHA DE GAIA



Prólogo

TUVALUN
BIBLIOTECA DO TEMPLO DE HEMERA
7ª APA.
Documento nº 3807

Carta aos humanos:

            Normalmente se chama de fantasia aquilo que os seres humanos veem, ouvem e sentem nos primeiros anos de suas vidas e que não pode ser explicado pelas leis do mundo humano. Mas será mesmo? Os anos passam e a ignorância toma conta da mente, que perde a sua pureza e aprende aquilo que a sociedade lhe impõe. É perdida, então, a capacidade do contato com o fantástico mundo das fadas. Mas os seres que nele vivem continuam a coexistir com os humanos e o seu espaço físico.
            Desde crianças vocês ouvem falar de nós, mas, à medida que crescem, aos poucos, vão se esquecendo. Crianças humanas são tão puras que, pra elas, não é difícil nos ver. Infelizmente uma criança não é criança para sempre. Elas crescem e viram adultos ocupados. Frios. Apressados. Corrompidos. Apenas o que interessa são os bens materiais. Os sentimentos são esquecidos e então as pessoas ficam cada vez mais longe umas das outras. Suas únicas preocupações são com suas vidas vazias e seu precioso dinheiro. E isso acontece por um só motivo: os adultos não sabem como acreditar. Quando vão ficando mais velhos e a infância sobe à tona, nós somos lembrados. Mas falar de magia parece ser algo proibido entre os humanos. Para vocês, somos apenas fruto da imaginação de crianças criativas ou de velhos esclerosados.
            Os humanos se esqueceram que um dia já viveram entre nós. Agora, eles destroem as florestas e alguns de nós estamos desaparecendo rápido demais por isso. Já outros, estão tendo de adentrar em um mundo que não é nosso. Um mundo novo e desconhecido. Um mundo de guerras, tristeza, ódio e ganância. Estávamos até hoje escondidos nas brumas, mas agora vemos que é hora de voltar, pois somos criaturas de luz e voltamos para trazer o que falta a vocês. Somos seres da terra, do fogo, do ar e da água. Somos seres protetores.
Observe o mundo ao seu redor. As pessoas que cercam você são de fato humanos? Como pode ter tanta certeza assim? De onde você veio? O que sabe realmente sobre a sua espécie? Eu disse realmente. Não o que se vê em livros. Afinal eles foram escritos por vocês e vocês colocam neles o que quiserem. Por que tantos humanos acham que existe uma verdade absoluta? Nada é absoluto. E talvez nada seja real também.
Mesmo que não procure a magia, a magia pode estar vindo procurar você.
                                                                                   
Ellyllon

  
Capítulo Um – Adoção

Em uma madrugada quente de verão, uma criança de três anos é encontrada na porta de um orfanato, na Califórnia. Um clarão, indicando que a manhã se aproximava, iluminou o céu no momento em que Dorotéia, uma freira do orfanato, segurou a criança nos braços. Então, a freira decidiu dar à menina o nome de Aurora.
Sete anos se passaram desde aquele dia. A Amazônia, que no ano de 2028 havia sido declarada como propriedade mundial, tornou-se propriedade dos Estados Unidos da América dois anos depois. As florestas estavam quase que totalmente desmatadas e os oceanos, poluídos. Ondas gigantes, juntamente com o aumento do nível do mar ocasionado pelo derretimento das geleiras, devastavam o litoral de todo o mundo. Tempestades de areia, terremotos, queimadas e tornados aconteciam frequentemente. O planeta não parava de esquentar. Muitos animais haviam sido extintos.  O mundo estava entrando em colapso.
Além disso, as pessoas exigiam mudanças, soluções para inúmeros problemas e pressionavam cada vez mais os governantes. Em resposta, os governos tornavam-se repressores. Em tempos assim, acho que todos sabem o que acontece: ditadura, uma forma de governo em que o cruel se torna facilmente sinônimo de eficaz e o diferente passa a ter o mesmo significado que perigoso. A ditadura tornou-se mundial. As rebeliões e os protestos eram silenciados e seus líderes sumiam “misteriosamente”. O medo pairava sobre as ruas. Mas essas notícias não chegavam até as crianças. Muito menos até as crianças de um orfanato.
            Aurora crescia nesse mundo, mas sem saber nada sobre ele. Criada em um orfanato regido por uma religião rigorosa e com uma educação ultrapassada (onde a religião e os governantes é que decidiam o que devia ou não ser ensinado), ela não sabia sequer que existia um presidente para cada país. Mas ela queria saber mais. Queria conhecer outras pessoas, outros países, outros mundos.
Ela se sentia diferente de todas aquelas crianças com quem convivia. E todos faziam questão de que ela nunca esquecesse o quão diferente era. Além disso, Aurora via coisas que outras crianças não podiam ver e isso já tinha lhe gerado muitas idas ao Sufoco (um armário muito apertado onde as crianças desobedientes tinham de ficar por horas).
Mas Aurora não deixava de ver. Eram pequenas criaturinhas que brincavam com a menina. E até a tiravam do Sufoco algumas vezes. Contudo, ninguém acreditava nela. Nem mesmo o único amigo que ela tinha em todo o orfanato: Alex. O garoto não fazia piada com isso, como os outros internos, mas sempre achou que Aurora tinha “a criatividade aflorada demais para uma criança de nove anos”.
- Ei, esquisita! – Bárbara falou, entrando no quarto. Seus cabelos loiros e ondulados balançavam quando ela andava. – Não andou mais vendo aquelas coisas não é? – Aurora não respondeu, apenas baixou a cabeça. – Já é muito ruim ter que dividir o quarto com você, não piore tudo dizendo que vê insetos parecidos com pessoas na janela. – Aurora continuou calada. – Sabe o que ouvi dizer? Que a diretora chamou um médico de louco pra ver você e se Deus quiser, ele vai te levar pra um hospício e eu vou ter o quarto só pra mim.
- Como você é má, Bárbara! – foi a única coisa que Aurora consegui dizer. E saiu do quarto, chorando.
            Bárbara era uma criança muito cruel. Ela detestava Aurora sem motivo algum. Aliás, para ela, o quarto era um motivo. Ela odiava ter de dividir seu espaço com Aurora. Para a menina, também era muito difícil ficar no mesmo quarto que Bárbara.
            E o pior era que o único amigo de Aurora em todo o orfanato ia embora em dois dias. Na semana anterior, um casal não muito jovem foi até o orfanato procurando uma criança, um menino na verdade, para adoção. E eles adoraram Alex. Mas também, quem não adoraria? Alex era muito gentil, esperto e educado. Talvez a melhor criança que o orfanato tinha.
            E agora, Alex ia embora. Aurora não teria mais com quem conversar, nem quem a defendesse quando falassem coisas ruins sobre ela. Ele não acreditava quando Aurora lhe falava das criaturas que via, mas a menina não o culpava. Ela sabia que, além dela, ninguém mais via aquelas pequenas coisinhas. Contudo, Alex era a única pessoa que Aurora conhecia que não ria dela ou dizia que ela estava louca. E ela era muito grata por isso.
- Oi! – disse Alex. O menino tinha um rosto meigo e doce. E estava feliz em ver Aurora. Seus olhos azuis brilhavam.
- Oi! – a menina respondeu. Aurora também estava feliz em ver seu amigo, mas estava um pouco triste, pois aquela podia ser a última vez que via Alex. – Animado com a adoção?
- Um pouco... – disse o menino. – Bem, na verdade, estou com um pouco de medo... Não sei se vou me acostumar.
- Ah, Claro que vai! – Aurora falou. – Eu é que não vou me acostumar a ficar sozinha aqui.
- Você vai ser adotada em breve. Eu tenho certeza! Quem não quer ter uma filha como você? – disse Alex e Aurora sorriu.
- Bem, o caso é que você irá embora em breve e eu ficarei aqui esperando que alguém venha me buscar. – disse a menina.
- Ainda anda tendo aqueles sonhos? – o garoto perguntou, tentando mudar o assunto.
- Sim. – Aurora respondeu sem muito entusiasmo. – Mas preferia não ter. É angustiante sentir que há alguém esperando por mim, precisando de mim, sem que eu saiba quem é.
- Será que a moça que você vê em seus sonhos é sua mãe? – Alex perguntou, com receio.
- Não sei. – Aurora pareceu um pouco triste. – De fato, ela se parece um pouco comigo. Mas ultimamente não é só com ela que eu ando sonhando...
- E com o que mais?
- Sabe aquelas criaturas que eu vejo?
- Ham... Sei. – disse Alex.
            Aurora sabia que ele não acreditava nas tais criaturas, mas ele não ia dizer nada para magoá-la. Então, resolveu continuar. Ela precisava falar. E aquele seria, talvez, seu ultimo momento com o amigo.
- Agora, eu sonho com elas. Faz alguns dias que não aparecem mais para mim. Achei que finalmente tinham me deixado em paz. Mas uma noite, apareceram no meu sonho.
- E como era esse sonho?
- Não sei direito. – Aurora falou, tentando lembrar o sonho. – Era um lugar muito ensolarado e colorido... Tinha muita gente, mas ninguém que eu conheço. E tinha as criaturinhas que eu sempre vejo. Elas pulavam por toda parte. Mas aí tudo começou a ficar distante. Era como se um véu tivesse sido colocado entre mim e aquelas pessoas. E então eu acordei. Eu senti como se... algo faltasse em mim. Acho que senti saudade do sonho.
- Que estranho!
- Muito. – disse Aurora. E então voltou a se entristecer. - Será muito ruim ficar sozinha. Sem ter com quem conversar...
- Eu nunca te deixarei sozinha. – Alex falou. O rosto sério. – Estarei sempre com você, onde estiver.
- Nunca vou te esquecer. – disse Aurora. E ele a beijou na bochecha. Ela sorriu.

            Outra manhã se levantou. E estava escura como sempre. Os raios de sol mais persistentes conseguiam, com dificuldade, penetrar a nuvem espessa de fumaça. As pessoas que andavam nas ruas da cidade usavam máscaras brancas cobrindo o nariz e a boca e vestiam roupas pesadas e escuras.
            O orfanato onde Aurora morava era composto por dois andares e o térreo. No primeiro andar, ficavam os quartos dos meninos. No segundo, encontravam-se os quartos das meninas e das freiras. No térreo havia a biblioteca, a sala da diretora, a cozinha, o refeitório e as salas de aula.
Os quartos eram pequenos e divididos em um para cada duas crianças. O refeitório era amplo e havia apenas duas mesas com grandes bancos de madeira ao redor. Nem Aurora nem nenhuma outra criança fora na cozinha algum dia. A única coisa que conseguiam ver daquele local era uma parte da pia de lavar louças, que estava sempre abarrotada, quando uma das cozinheiras abria a porta para servir as refeições.
A biblioteca era o lugar que Aurora mais gostava. Havia estantes e mais estantes recheadas de livros que a menina podia ler até se passasse o resto de sua vida presa ali. Era lá que Aurora passava a maior parte de seu de seu tempo livre.
Os horários no orfanato, assim como suas regras, eram seguidos rigidamente. As aulas tomavam a maior parte do dia. Começavam sempre às 9 horas da manhã, logo após o café, que era servido às 8 horas. Depois havia o almoço, às 12 horas e as aulas recomeçavam às 13 horas e iam até às 16 horas. O toque de recolher era às 20 horas, após o jantar, que era servido às 19 horas. Então, entre as aulas da tarde e a hora de dormir, Aurora tinha um tempo para conversar com seu amigo, Alex, ou ler um pouco na biblioteca.
Contudo, as conversas com Alex não eram muito fáceis, pois meninas e meninos não podiam ficar numa proximidade considerada perigosa pelas freiras. Então, eles combinavam lugares onde poderiam conversar sem serem incomodados. A biblioteca era um deles. Lá, entre duas estantes, os dois passavam horas até ouvirem a sineta indicando que a hora de dormir chegara.
            E era sempre a mesma coisa. Quando a sineta indicando que a hora de se recolher chegava, Aurora e Bárbara se acomodavam em suas camas para esperar a freira passar pelo quarto e conferir se as duas estavam lá. Cerca de quinze minutos depois, duas das amigas de Bárbara vinham sorrateiras pelo corredor e davam três batidas na porta. Então, ela abria e as três ficavam conversando até altas horas da noite. Isso era muito ruim para Aurora, pois com o barulho ela não conseguia dormir e ficava com sono durante as aulas. Mas naquele dia, Aurora estava tão cansada e com tanto sono que nem o barulho da conversa de Bárbara e suas amigas a incomodou.

            Um novo mundo se mostrou para Aurora. Era claro e bonito, nem um pouco parecido com o que ela vivia. As pessoas acenavam para ela. E ela acenava de volta. Sentia-se bem ali. Criaturas aladas voavam com o vento. Ao longe, Aurora viu um castelo. Ela sabia que era para lá que iria. Sua casa. Aurora andava por entre as flores e brincava com as pequenas criaturas aladas. Uma música começou a tocar. Uma música que ela conhecia, mas apenas de seus sonhos. Então, ela viu um bebê. Um pequeno ser que a olhava. Era uma menina. Devia ter uns dois anos de idade. Era linda. Parecia um raio de sol. Ela olhava para Aurora, sorria para ela.
            A pequena criança segurou sua mão e a guiou pelo jardim florido. Depois, soltou a mão de Aurora e correu, desaparecendo entre os arbustos verdes. Aurora correu atrás dela. Então, parou em frente a um grande espelho. Foi aí que viu a criança novamente. A menininha estava dentro do espelho, no mundo em que Aurora vivia, onde tudo era cinza. Mas tudo estava diferente agora. Parecia destruído. Não havia pessoas nas ruas. Aliás, parecia que não havia ninguém ali há muito tempo. Aurora se aproximou do espelho e a criança a viu. Ela apontou para Aurora, que não entendeu o gesto. Contudo, levou apenas cinco segundos para que Aurora compreendesse que não era para ela que a criança apontava, mas para o que estava atrás dela.
Aurora virou-se. O mundo onde estava, tão ensolarado e colorido, parecia completamente destruído. Uma lágrima rolou pelo rosto da criança e o mesmo aconteceu do outro lado do espelho, com Aurora. No quarto, sem que ninguém percebesse, pois Bárbara já dormia um sono profundo e suas amigas já haviam ido para seus quartos, Aurora levitava a dois palmos de sua cama.

Mais uma manhã despertou. Era sábado. Aurora olhava a rua pela janela de seu quarto. Flocos de neve começaram a cair do céu. Algum tempo se passou até que a luz amarelada do farol de um carro apontasse na esquina da rua. Ele se aproximou do orfanato. Era um carro grande e azul e Aurora logo soube do que se tratava. Um homem vestido de terno preto desceu do carro e abriu a porta de trás. Outro homem, que vestia um sobretudo marrom saiu do carro e ajudou uma moça, de seus 30 anos, muito bonita e bem vestida. Os dois dirigiram-se à entrada do orfanato, enquanto o motorista entrou novamente no carro, onde ficou esperando seus patrões.
Aurora deixou seu quarto e dirigiu-se à escada. Ela viu o senhor e a moça no saguão, junto à diretora e, para a tristeza de Aurora, Alex. Ele não vestia mais o uniforme do orfanato. Estava de cabelo arrumado e usava uma roupa que parecia ser cara. Seus novos pais deviam tê-la mandado para ele. Aquela seria a última vez que Aurora veria seu melhor amigo. E nem poderia se despedir.

“Estarei sempre com você, onde estiver”.


COMPRE A FILHA DE GAIA!

Degustação CONTOS DO MUNDO MÁGICO




POR TRÁS DA LENDA
Os gnomos da floresta

- Irlanda,1923 –


           Carina tinha onze anos, cabelos castanhos e olhos verdes. Morava com sua mãe, Lúcia, na capital da Irlanda. Seu pai havia morrido na primeira guerra mundial, quando ela era ainda muito pequena. O que mais Carina gostava era de passar as férias na casa da avó paterna, D. Sula, que ficava perto da floresta. Era uma casa toda feita de madeira que tinha uma grande lareira na sala, onde as duas tomavam chocolate quente nos dias frios de inverno e sua vó lhe contava várias histórias sobre os seres da floresta. Como sempre, as férias chegaram e Carina foi correndo para casa.
           O inverno chegava sorrateiro, se embrenhando pelas florestas. A casa de D. Sula ficava no meio da mata e era cercada por pequenos lagos que, agora, se encontravam todos congelados.
           Ao chegar à casa da avó, enquanto tirava as coisas do carro, Carina varreu o jardim com o olhar e viu um homenzinho engraçado, muito pequeno para o normal, que usava um chapéu pontudo e vermelho e estava pondo adubo nas plantas.
           A casa tinha um telhado pontudo e uma chaminé ligeiramente torta. As ripas de madeira que cobriam as paredes eram ornamentadas e as que cobriam o teto eram em forma de losango. Dispostas dos dois lados de uma porta vermelha estavam as janelas, com a parte de cima arredondada.
           De repente, uma cortina em uma das pequenas janelas balançou um pouco e um vulto passou por ela. Então, subitamente como tinha se mexido, a cortina voltou ao seu lugar e a porta da casinha abriu-se com um baque.
- Minha netinha chegou! – gritou D. Sula ao abrir a porta. Carina olhou para sua avó por um segundo e ao olhar novamente para o lugar onde estava o homenzinho viu que ele não se encontrava mais lá. – Vamos entrando minhas queridas!
À medida que se encaminhava para entrar na casa, Carina olhava para onde tinha visto o homenzinho, mas ele não voltou a aparecer.
             Depois do jantar Carina foi para o quarto e ficou parada olhando pela janela. Havia começado a chover. A chuva molhava as flores, que balançavam com o vento forte, e chicoteava a janela de vidro do quarto da menina.
- O que foi querida? – disse D. Sula, ao adentrar o quarto. – O que está olhando?
- Estava procurando seu jardineiro!
- Mas... Eu não tenho jardineiro minha querida! – disse D. Sula. – Mas pode ser que...
- O que vovó?
- Nada querida, nada!
            Naquela noite, D. Sula foi até a biblioteca e pegou um grande livro que parecia não ser usado há muito tempo, pois estava todo empoeirado. O livro tinha uma capa de couro e dizia em letras douradas: “Criaturas da Floresta”. Carina acordou e foi até a cozinha para pegar um copo de água e, vendo uma luz acesa na biblioteca, resolveu ir até lá.
- Vovó, o que você está fazendo aqui?
- Estou dando uma olhada nesse livro, minha querida! – disse D. Sula oferecendo um chocolate de uma caixa de madeira.
- O que diz aí vovó? – falou Carina, comendo o chocolate.
- Esse livro fala sobre as criaturas mágicas que vivem na floresta... Quando você falou que tinha visto um homenzinho no meu jardim, eu desconfiei que pudesse ser um gnomo e vim procurar algo sobre eles no livro.
- E era um gnomo vovó? – disse Carina curiosa. D. Sula fez que sim com a cabeça. – E o que diz aí sobre eles?
- Aqui diz... – D. Sula começou a ler. – Os gnomos são seres que se dedicam à proteção das florestas. São seres elementais, espíritos da natureza. Eles são os elementais da terra. E vivem em torno de 300 anos. Quando um deles nasce, é plantada uma árvore que só morre se o gnomo morrer. Se a árvore é cortada, a vida do gnomo acaba. O maior desafio dos gnomos é enfrentar os troll. Existem vários tipos de gnomos: o gnomo da floresta, do deserto, do jardim, da fazenda e o gnomo siberiano. Dizem que quem roubar o chapéu de um gnomo pode controlá-lo e obrigá-lo a realizar seus desejos. Aqui, na Irlanda, é muito comum procurar no fim do arco-íris um grande pote de ouro.

            De manhã, Carina, sua mãe e D. Sula, estavam tomando café quando a menina disse que tinha visto o gnomo pela manhã, quando acordou. Lúcia, mãe de Carina, que botava um pouco de café em sua xícara, parou de repente.
- O que você disse? – Lúcia falou, parecendo muito aborrecida. – Sula, eu não acredito que ainda está contando essas histórias absurdas para Carina.
- Desculpe Lúcia, mas é que...
- Eu espero sinceramente que não se fale em gnomos e outros seres da floresta durante o tempo que minha filha passar aqui!
- Como quiser Lúcia!
- Assim espero.
- Mas mãe...
- Nada de mais Carina. Ou prefere ir para casa hoje mesmo?
- Desculpe! – disse Carina levantando-se e indo para o seu quarto.
            Depois do café, Lúcia se despediu de sua filha e de D. Sula e voltou para sua casa, na cidade. Carina correu até a biblioteca, pegou o livro que sua vó estava lendo pra ela na noite passada e abriu no índice. Seus dedos longos e finos percorreram calmamente os vários nomes de criaturas da floresta, parando em “gnomos”. Ela foi até o segundo parágrafo e leu.
- Os gnomos são trabalhadores e prestativos. Seus tesouros, ao contrário do que muitos pensam, ficam escondidos em tocos de árvores e minas, mas não é fácil achá-los. Artesãos habilidosos, os gnomos produzem lindas jóias de metais preciosos brutos e as guardam muito bem ou as dão para pessoas realmente especiais que mereçam sua gratidão por algum motivo. – Carina continuava lendo sobre os gnomos e não percebeu que uma pequena luz cor de rosa havia aberto a janela e entrado na biblioteca. A luzinha pousou no livro e deu um susto em Carina. – Quem é você? O que é você?
- Eu sou uma fada. Não dá pra notar? – disse a fada, suas grandes asas transparentes do tipo “colibri” (sendo duas asas maiores e outras duas menores, complementares) agora haviam parado de se mexer freneticamente.
- É que eu nunca vi um ser mágico antes! – Carina falou maravilhada, se recuperando do susto.
- Eu ajudo sua avó com o jardim e...
- Você mora na floresta?
- Bom... Tecnicamente sim.
- Então pode me mostrar um gnomo?
- Claro! Posso te levar até o centro da floresta, é onde estão os gnomos. Mas eu quero uma coisa em troca.
- Ai mais essa! Era só o que me faltava, uma fada interesseira.
- Ora... Não se adquire alguma coisa por nada! Vai lhe custar uma ninharia. Você nem vai sentir falta. O que eu quero é... O seu medalhão.
- Eu não posso te dar ele. É herança de família! Mas você pode ficar... – Carina pensou um pouco - Com os meus brincos.
- Está bem. – Carina tirou os brincos e os deu a fadinha, que virou-se como quem fosse embora.
- Mas você não vai me mostrar o gnomo?
- Ah é mesmo, já ia esquecendo. Que cabeça a minha não? Bom... Mas eu tenho que te avisar que a floresta não é como todos pensam. Ela é cheia de perigos escondidos e sombrios... – disse a fada e mudou repentinamente de um tom assustador para um alegre e serelepe. - Meu nome é Leana e eu vou ser sua guia nessa aventura, ai... – disse a fadinha suspirando. - Eu sempre quis dizer isso.
            O sol nasceu calma e lindamente no horizonte. Carina acordou, tomou café e foi ao encontro de Leana na entrada da floresta, perto de um grande carvalho iluminado pela luz da manhã. A neblina estava fazendo suas manobras costumeiras pairando acima da grama. Estava mais densa do que o normal porque Carina tinha saído de casa um pouco mais cedo da hora habitual. O sol mal havia nascido e até a poeira estava um pouco mais úmida por causa do orvalho ainda agarrado a grama.
            As duas estavam andando por entre as altas árvores há um bom tempo quando Carina disse:
- De que perigos você tava falando ontem, Leana?
- De algumas criaturas da floresta! Por exemplo... – A fada parou de falar ao ver um homenzinho com um chapéu de três pontas e um avental de couro à frente delas. Suas roupas eram parecidas com roupas da idade medieval.
- Por acaso... – disse ele. – Vocês não querem comprar... Botas?
- Não obrigada! Não estamos interessadas. – disse Leana.
- Mas... Será que eu não posso fazê-las mudar de idéia?
- Você não ouviu o que eu falei? – a fada falou aborrecida, aborrecida.
- Se vocês comprarem uma bota eu posso mostrar o meu... tesouro.
- Tesouro? – disse Carina, parecendo hipnotizada. Seus olhos brilharam e começaram a mudar de verde para um tom avermelhado.
- É melhor irmos Carina! – disse Leana, puxando o cabelo da garota.
           As duas se distanciaram do homenzinho, que agora pulava de raiva. Carina balançava a cabeça como se estivesse saindo de um transe.
- O que era aquilo? – perguntou.
- Um Leprechaun.
- Um Lê... O que?
- Leprechaun. É um tremendo enganador safado – disse a fadinha com raiva. – Ele diz que tem um tesouro e hipnotiza as pessoas para que comprem suas botas. Esse é um dos perigos da floresta. Mas o maior dos perigos são os gremillins. Os que vivem nas cidades são mais pacíficos e não saem de suas tocas por medo dos humanos, mas os das florestas são maus e perigosos. Com aquelas garras afiadas... Eles vivem nas cavernas, só na espreita de alguma presa. São até mesmo piores que os troll.
- Os troll?
- São criaturas más e sem coração. Sem cérebro também. – Leana falou, rindo.
- E o que tem de bom aqui na floresta além das fadas e dos gnomos?
- Os elfos! – disse a fada, feliz. – São imortais... Quer dizer, quase. Eles morrem, mas só se forem assassinados! Os elfos do ar se parecem bastante com os fados.
- E... Algum já... – disse Carina sem jeito. Leana fez que sim com a cabeça quando uma luz, rápida e brilhante, passou pelas duas, dando um susto em Carina. – O que foi isso?
- Um elfo! – disse Leana se derretendo. – Olá Bruce...
- Oi Le! – disse ele sem parar de voar. – Tudo bem?
- Melhor agora!
- Quem era? – disse Carina quando o elfo se afastou.
- Bruce. Ele é um elfo do ar!
- E você é caidinha por ele...
- É verdade! Mas ele nem percebe que eu existo. Viu como ele me trata?
- Ah... Deve ser o jeito dele. Mas de uma coisa eu sei: Nunca desista.
            Fazia um pouco de frio quando Carina e Leana chegaram a uma parte fechada da floresta, mas nada que não se pudesse agüentar. As árvores eram grandes e suas copas se juntavam umas com as outras fazendo o céu sumir entre as folhas. O cheiro de relva se misturava com o cheiro forte de incenso que vinha de dentro dos arbustos.
- É aqui!
- Então vamos! – disse Carina, indo em direção aos arbustos.
- Não... – disse a fada puxando uma mecha de cabelo de Carina. – Você não pode ir lá!
- Ai, o que foi? Porque eu não posso ir?
- Bom... Porque eles são meio... Chatos!
- Como assim?
- É que... Eles não gostam muito de humanos. Aliás... Eles não gostam muito de ninguém. Vivem isolados, cada um com sua família e as famílias quase nunca se falam e eles também não falam com os outros seres da floresta.
- Mas então porque um deles estava cuidando do jardim da minha avó?
- Gnomos cuidam da natureza... Eles protegem as plantas e os animais da floresta!
- Leana, podemos voltar amanhã... É que já está ficando tarde e minha avó pode ficar preocupada.
- Está bem. Voltaremos amanhã então... – disse a fada, voando para perto de Carina. - Mas nada de chegar muito perto dos gnomos.

            Carina chegou em casa, subiu as escadas correndo e se deitou. Ainda sentia o cheiro forte de incenso, que parecia ser de canela. Estava quase dormindo quando a porta do seu quarto abriu. Era sua avó.
- Boa noite Carina! Sonhe com os anjos e não se esqueça de dar boa noite aos duendes.
- Boa noite vovó!
           Carina bateu três vezes na madeira da cama e adormeceu. Pouco tempo depois, uma intensa luz verde surgiu em baixo de sua cama e de debaixo dela, saiu um homenzinho com um gorro pontiagudo azul. Ele subiu na cama, ajeitou o lençol de Carina e pulou novamente para o chão. Depois, saiu pela porta entreaberta e a lua sorridente, que antes estava escondida por entre as nuvens, voltou a iluminar o lindo rosto de Carina.

            O sol nasceu por trás das altas árvores da floresta. Carina acordou e levantou-se rapidamente. Vestiu-se e desceu ao encontro de sua nova amiga fada. As duas andaram até chegar perto da cidade dos gnomos. Uma música alegre e festiva ecoava pela floresta. Carina se embrenhou pelo matagal e viu vários gnomos dançando e cantando numa bela festa. Ela não percebeu que uma gnomida se aproximava de onde ela estava. A gnomida teve um grande susto, mas antes que pudesse gritar, Carina pôs a mão em sua boca e foi tirando calmamente à medida que a criaturinha se acalmava.
- Desculpe ter te assustado! – disse Carina.
- Não, tudo bem... Eu pensei que fosse um troll. É que eu nunca tinha visto um ser humano antes. – disse a gnomida. – Na verdade... Eu nunca vi nenhum outro ser da floresta a não ser os maléficos troll que vivem tentando invadir a terra dos gnomos.
- Eu sou Carina e essa e a fada Leana!
- Meu nome é Enya. É melhor vocês irem embora antes que as vejam aqui!
- Espere! – disse Carina. – O que está havendo? É algum tipo de festa?
- É sim. – respondeu a gnomida. – Hoje o príncipe Amir atinge a maioridade e se torna rei. Todos estão muito felizes porque o príncipe é um gnomo bom e justo.
- E que tipo de comida estão servindo lá? – perguntou Leana, interessada.
- Muitas coisas deliciosas. – disse Enya. – Os melhores cozinheiros gnômicos estão nessa festa e fazem comidas das mais apreciadas na realeza.
- E não podemos entrar? – disse a fada.
- Desculpem, mas não! – a gnomida falou. – É melhor vocês irem agora!

            Já passava de oito da noite quando Carina chegou em casa. Estava tão cansada que logo adormeceu. Batidas baixas na janela, que quase não se dava para ouvir, soaram docemente aos ouvidos da menina. Carina acordou e olhou pela janela. Leana, acompanhada por Bruce, a esperava do lado de fora.
- Leana? O que faz aqui? – espantou-se Carina.
- Vim te chamar para assistir ao mais belo espetáculo da floresta. A dança das salamandras!
- Mas que salamandras? – disse Carina, sonolenta.
- Os elementais do fogo, ora! Elas dançam toda noite de lua cheia.
- Está bem, eu já vou descer.
Carina se vestiu e desceu ao encontro dos dois.
- Essa é a humana de quem eu te falei! O nome dela é Carina. – disse a fada. - Ela estava comigo naquele dia, mas como você é muito desligado não deve ter percebido.
- Eu nunca vi uma humana tão de perto. Prazer, eu sou o Bruce!
- Já ouvi falar muito de você! – disse Carina e olhou para a fada, que corou.
- Então a gente vai ou não? – disse Leana, tentando mudar de assunto.
            De cima de uma árvore, os três esperavam ansiosos para ver a dança das salamandras. Vários casais e famílias de seres da floresta vinham assistir ao belo espetáculo que estava para se iniciar. De repente, uma faísca saiu do chão e depois outra e depois outra mais e logo uma linda fogueira dourada se fez presente no meio da floresta, iluminando-a. Uma a uma, as salamandras apareciam. Eram belos guerreiros com caldas de fogo e espadas reluzentes. Elas cruzaram as espadas e outra salamandra surgiu no meio delas. Era diferente das suas companheiras. Usava uma coroa de ouro e cristais preciosos e um longo manto de fogo. Era o rei das salamandras. Era encantadora aquela dança. Elas mudavam de cores e formas a todo instante. Um duelo foi iniciado até que elas retornaram ao chão tão rápido como tinham surgido e a floresta escureceu novamente. Carina, Leana e Bruce desceram da árvore onde estavam. Eles iam pegar o caminho para casa de Carina quando Enya apareceu. Parecia estar muito assustada.
- Carina rápido. Estamos sendo atacados!
- Atacados por quem? – disse Carina.
- Pelos gremillins ajudados pelos troll. Venha depressa, você tem que nos ajudar.
- Eu vou chamar os elfos e as fadas! – disse Bruce voando e desaparecendo na floresta.

            Ao chegar à terra dos gnomos, Carina viu vários deles feridos no chão, mas nem sinal dos gremillins nem dos troll, ou pelo menos nada que parecesse com as fotos que tinha visto desses seres. Bruce chegou acompanhado por várias fadas e elfos que ajudaram os gnomos. Carina olhou para todos os lados, mas não viu nada de errado. O medo e o sentimento de que tinha algo a observando se apoderou da garota e a fez não conseguir raciocinar direito. Ela se distanciou, aos poucos, da terra dos gnomos. Ia correndo entre as moitas, as folhas batiam em seu rosto. Ela sentiu como três navalhas afiadas lhe cortando a pele. O sangue jorrou manchando sua blusa branca. Ela caiu no chão, juntamente com seu medalhão e viu um bando de monstrinhos sanguinários se aproximando dela. Eram horríveis. Parecia que haviam saído de um filme de terror. Ela não sabia o que fazer. Estava rodeada por eles, estava cansada e sem conseguir levantar. Os gremillins vinham em sua direção vagarosamente, todos sorrindo seus sorrisos maléficos. Sabiam que ela não tinha chance. “É o fim”, pensou. Mas, quase que inesperadamente, uma após a outra, faíscas douradas saíram do chão formando uma linda fogueira que rapidamente cessou com o nascer do sol. Então... Carina desmaiou.
             Algum tempo depois, Carina abriu devagar seus lindos olhos. Estava em um quarto com paredes de madeira, como se estivesse dentro de uma árvore. Estava cercada por fadas, elfos e gnomos.
- Que bom que acordou! – disse uma voz familiar. Era Leana e parecia ter ficado ali todo o tempo. – Você está bem?
- O que aconteceu? – quis saber Carina, que ainda estava um pouco fraca.
- As salamandras tentaram te salvar, mas então o sol apareceu bem na hora e como você sabe, aqueles monstrinhos não suportam a luz da manhã.
- Como vocês conseguiram aumentar de tamanho?
- Nós não aumentamos de tamanho, você é que diminuiu.
- Você comeu uma semente que a fez ficar assim, mas não se preocupe. Em meia hora voltará ao seu tamanho normal. – disse um velho gnomo que entrou no quarto. Parecia ser muito respeitado, pois todos fizeram uma reverência quando ele entrou acompanhado de outro gnomo, mais novo e que não falou, apenas observou a garota.
- Você... É o gnomo que cuida do jardim da minha avó!
- Isso mesmo! Mas saiba que não faço isso por gostar de humanos.
- Eu sei... – disse Carina. E não falou mais nada em sinal de respeito. Tinha ouvido (ou lido) em algum lugar que os gnomos gostavam disso.

            Carina logo voltou ao seu tamanho normal, como o gnomo tinha dito que aconteceria, e retornou correndo para a casa de sua avó. Estavam parados em frente à porta dois carros: O de sua mãe e um carro de polícia. Carina entrou rapidamente em casa e viu sua avó, sua mãe e uma mulher desconhecida, de longos cabelos lisos e unhas grandes fortemente pintadas de escarlate, a quem julgou ser a dona do carro de polícia.
- O que está havendo? – disse ela, fechando a porta.
- Carina, onde você estava? – disse sua mãe preocupada.
- Minha filha, você desapareceu... – disse sua avó abraçando-a. – Fiquei aflita e chamei sua mãe e a Oficial Torres...
- Essa é a garota? – disse a Oficial. – Bem... Posso ir então!
- Muito obrigada Oficial – disse D. Sula. – Vamos! A levarei até a porta.
- Não precisava terem ficado tão preocupadas. Eu estava na floresta com os gnomos e...
- Na floresta... Carina o que eu lhe disse sobre... – Lúcia parou ao olhar para o pescoço de Carina. – Onde está o seu medalhão?
- Meu... Meu medalhão? – disse Carina notando que o medalhão não estava com ela e lembrando que ele tinha ficado na floresta.
- Sim Carina. Onde está o medalhão que era de seu pai?
- Eu acho que o perdi...
- Na floresta? Vai me dizer agora que os gnomos o roubaram? E que arranhões são esses? – Lúcia parou de repente quando a campanhia tocou.
            Carina foi até a porta e a abriu. Não havia nada nem ninguém lá, apenas uma linda jóia e um cordão amarrado a um pequeno círculo dourado.     
- Meu medalhão! – gritou Carina.
            Carina e sua mãe estavam pondo as malas no carro com a ajuda de D. Sula quando Carina olhou para a árvore onde tinha visto o gnomo que cuidava do jardim da sua avó e viu, por trás de uma folha, duas pequenas luzes.
- Olá Leana! Oi Bruce! – disse ela ao chegar perto deles.
- Então... Você tem mesmo que ir? – disse a fada e Carina fez que sim com a cabeça.
- É que minha mãe acha melhor eu cuidar dos meus ferimentos com um médico e como por aqui não tem nenhum...
- Vamos sentir a sua falta – disse Bruce. – Foi muito bom conhecer você.
- Também foi bom conhecer vocês! Bem... Isso não é exatamente uma despedida. Quero dizer... Voltarei nas próximas férias. Ah... Recebi o medalhão, obrigada! E também pela jóia.
- Mas não fomos nós que devolvemos. Foi a Enya. Ela o achou e perguntou onde você morava para devolvê-lo e em agradecimento ao que você fez pelos gnomos, eles te mandaram uma jóia feita pelos mais habilidosos artesãos gnômicos.
- Mas... Eu não fiz nada!
- Não é o que eles acham. – disse a fada sorrindo, e se distanciou acompanhada pelo elfo.

            Fazia uma semana que Carina tinha chegado em sua casa. Ela estava em seu quarto quando recebeu uma carta de sua avó. Ela abriu e começou a ler.

            
               Minha querida neta,
                                Hoje recebi uma visita que nem eu mesma acreditei... Uma pequena fada chamada Leana veio aqui e me entregou um convite que eu levei várias horas pra conseguir ler devido ao tamanho muito pequeno da letra. No convite dizia que você está convidada para o casamento dela com um elfo chamado Bruce que vai se realizar no quinto dia depois da lua cheia deste mês e como sei que você ainda está de férias, creio que poderá comparecer a festa. Ela também pediu para eu agradecer a você pelo conselho de nunca desistir e que depois lhe conta como ela conseguiu essa proeza. Ah... Outra coisa! Ela pediu para lembrar que todas as criaturas (boas) da floresta vão estar presentes, inclusive os gnomos.

                                                                         Espero que venha logo.
                                                                        Um grande beijo da sua avó que te ama muito,
                                                                                            Sula.


COMPRE CONTOS DO MUNDO MÁGICO!