Sobre o direito ao casamento gay

Depois das declarações polêmicas do pastor evangélico Silas Malafaia acerca da sexualidade humana, tivemos a eleição do pastor Marco Feliciano (autor de declarações preconceituosas sobre africanos e gays, em 2011) para a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara. Ainda, em carta de repúdio a projeto de casamento gay enviada aos monastérios de Buenos Aires, o novo Papa eleito declarou: "Não sejamos ingênuos, não se trata de uma simples luta política. É uma pretensão destrutiva ao plano de Deus. Não se trata de um mero projeto legislativo, é apenas o sinal de uma mentira que pretende confundir e enganar os filhos de Deus".

Tá. Mas o que isso tem a ver com nosso país (Brasil), e com o direito ao casamento gay no nosso país?

O Brasil é, teoricamente, um estado laico.

Estado secular ou estado laico é um conceito onde o estado é oficialmente neutro em relação às questões religiosas, não apoiando nem se opondo a nenhuma religião. Um estado laico trata todos os seus cidadãos de forma igualitária, independente de sua escolha religiosa, e não deve dar preferência a indivíduos de certa religião.


Sendo assim, qualquer religião que seja não pode "apitar" em nada no que diz respeito à leis. Porém, o Brasil é um país, quase que em sua totalidade, cristão. E os valores das religiões que fazem parte dessa vertente estão enraizados na nossa cultura, de uma forma ou de outra. Por que será que a união homossexual ainda não foi legalizado em todo o país como casamento e não somente união estável?

Penso que, na religião deles são eles que mandam (ou quem eles servem). Se disserem que pedra é água tá dito e pronto. Mas a lei e a política deveriam ser separados de tudo isso. Porém, muitos líderes religiosos ocupam cargos políticos. Ok, isso não é errado nem proibido. Pelo menos enquanto não houver interferência dos ideais religiosos dessas pessoas nos cargos que elas ocupam.

Então, se padres e pastores (cito esses por serem maioria e ilustrarem bem a situação) se recusarem a celebrar o casamento religioso entre pessoas do mesmo sexo, eles têm todo o direito. Quanto a isso, não tem lá muito o que fazer. Funciona assim há muito tempo. Agora, eles não têm é o direito de "meter o bedelho" onde não lhes diz respeito (lei, política).

Ninguém tá pedindo pra ninguém aceitar a sexualidade das pessoas não. Mas é DEVER de cada um respeitar o DIREITO da pessoa ser como ela é. Só isso. Simples. A lei e a política não tem obrigação de consultar o Papa ou os pastores para saber se eles concordam com que o casamento gay seja reconhecido legalmente. Nem mesmo se Deus descesse lá do trono dele ou Posseidon resolvesse detonar à costa brasileira em protesto deveria haver qualquer dúvida legal e/ou política para tal resolução.

Todos têm o direito ao casamento, não somente à união estável, se assim quiserem e qualquer que seja a igreja, pode bater o pé, espernear, mas não pode interferir na lei e na política. Religião não tem nada a ver com isso.

Vamos ficar cada um no seu quadrado.


Se você concorda, comente! Se você discorda, comente também! Vamos discutir de forma civilizada e inteligente sobre essas questões tão importantes.

Sobre o direito de escolher

Hoje entrei numa discussão no facebook (como vocês sabem adoro temas polêmicos) e resolvi trazê-la aqui para o blog.

Tudo começou quando minha tia colocou uma frase de uma matéria da revista Vida Simples que dizia: "Quem disse que para ser feliz é preciso crescer e multiplicar-se? Cada vez mais, casais optam por não ter filhos - e são felizes assim".

E ai, um amigo dela do facebook comentou "É verdade, só descobrem na velhice que não deixam nenhum legado que não deixar nenhum legado como um filho bem criado é partir sem deixar nada de realmente importante".

Comentei que legados importantes sempre podemos deixar, independente de termos filhos ou não. Escrever um livro, plantar uma árvore (os clássicos), descobrir a cura para o câncer, etc. São muitas as coisas que podemos fazer em vida, que deixaremos após nossa morte. E, realmente, ter filho somente pelo fato de deixar um legado à humanidade, não é motivo para fazer essa escolha. Na verdade, há outras razões embutidas ai que, raramente, paramos para refletir sobre. Como por exemplo: Nossos desejos narcisistas, temor da solidão e incansável busca pela imortalidade.

Ora, quando temos filhos e projetamos neles os desejos que não conseguimos realizar em nossas vidas, não se trata de um certo grau de narcisismo?

"Meu filho, meu pai que era seu avô, era um farmacêutico renomado, eu nunca gostei de estudar e acabei nem mesmo me formando. Mas você é muito aplicado nos estudos, por que não presta vestibular para farmácia?".

Quem nunca ouviu algo assim? Muitas vezes queremos que nossos filhos sigam por caminhos que escolhemos e julgamos ser o melhor para eles. Porém, nem mesmo pensamos qual seria a escolha deles. Alguns, se negam a deixar suas vidas serem comandadas pelos pais. Mas outros se submetem por motivos diversos e subjetivos de cada um.

Também temos muito medo de ficar sozinhos. Muitas pessoas têm filhos para que estes cuidem delas na velhice. Sim, isso é um fato. Vemos claramente quando conversamos com idosos que fizeram a escolha de ter filhos por esse motivo.

"É... você bota um filho no mundo, dá de tudo e quando eles crescem e formam uma família, esquecem que tiveram pais".

Quem nunca ouviu algo assim?² Aliás, isso me lembra um livro que li quando estava na faculdade. Se chama "Abandonarás teu pai e tua mãe", numa menção a frase da bíblia: "O homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne" (Gênesis: Capítulo 2, verso 24. Bíblia Sagrada. SBB. Tradução na linguagem de hoje). O livro faz uma análise psicanalítica acerca do casamento e é muito bom para ser lido por pais e filhos. Mas isso fica para um próximo post.

Continuando... chegamos a incansável busca pela imortalidade. Sim, isso é quase um desejo universal do ser humano. Quase como se fizesse parte de nós. Na verdade, se pensarmos a partir de uma visão biológica do assunto, é exatamente isso. Nós buscamos, com a reprodução/procriação (ter filhos), a manutenção e continuação da espécie (naquela parte biológica do nosso ser).

Platão, em seu livro "O Banquete" trata sobre isso. Muito resumidamente, o livro fala do amor, em suas mais variadas facetas. E há um trecho onde é falado que o amor é o que todos buscam, já que esse sentimento levaria à imortalidade, posto que, é a partir dele, que se gera a perpetuação de si mesmo. Como minha avó mesmo disse: "é uma forma de manter-se vivo, deixar no mundo um pedaço de si".

E a incansável busca pela imortalidade se aplica, ainda, juntamente ao desejo narcisista de reconhecimento, ao que foi mencionado também na discussão do facebook, onde a pessoa disse que "bom seria se fossemos todos um Monteiro Lobato e deixássemos uma obra literária de qualidade. Deixar livros que não sejam lidos não vejo vantagem. Quanto à árvore, plantar uma bem grande e com frutos de gosto inquestionável seria também bem interessante. Sem contar que colocar nela uma placa de bronze bem grande com seu nome cravado para a posterioridade é também bem viável".

Se não por isso, por que então a necessidade de que alguém leia o seu livro (afinal escrever não significa publicar)? Para que uma árvore tão grande? E, ainda mais, com uma placa com seu nome? Isso não é buscar reconhecimento? Não é alimentar seu ego? E eu que fiquei tão feliz ao plantar minha primeira árvore, lá no mangue do Rio Potengi. Igual a todas as outras, mas que vai durar por muito tempo, sem que ninguém precise saber qual é. Hoje tenho quatro árvores plantadas nesse mundão. E ainda quero plantar mais. Afinal, o mundo está precisando de mais árvores.

Porém, para mim as motivações que levam alguém a ter um filho, por mais importantes que sejam, ainda ficam em segundo plano. Penso que o mais relevante é aceitar que hoje temos outras possibilidades de escolhas que não tínhamos décadas atrás. Não é segredo pra ninguém que o mundo está mudando. Não sou contra ter filhos. Eu quero ter um filho (ou dois, talvez), mas quero FAZER essa escolha. Não quero que ela me seja imposta, como era antigamente, quando as mulheres não tinham outras opções de vida que não fosse cuidar da casa, do marido e dos filhos.

Eu quero ESCOLHER casar, ter filhos e o que mais eu queira. E respeito quem ESCOLHE seguir a vida de outra forma. Sim, existem MUITOS casais sem filhos e felizes. E que podem continuar ou não sendo felizes dessa forma. As consequências às escolhas feitas é algo que só diz respeito à eles. Ficar tentando adivinhar o futuro dos outros não é algo interessante.


P.S.: Ao dizer que desejos narcisistas, temor à solidão e busca pela imortalidade motivam algumas pessoas a fazerem a escolha de ter filhos não estou afirmando que TODAS as pessoas no mundo escolhem ser pais e mães o fazem por um desses três motivos. Sei que existem pessoas que decidem conscientemente e de forma reflexiva fazer essa escolha.


E vocês, o que acham?

As princesas da Disney e a "ilusão ilusória" de seus efeitos sobre as mulheres...



Dia desses, conversando com uma colega sobre a música do Roberto Carlos (nem preciso dizer que é "Esse cara sou eu" né?), ela disse uma frase que me fez passar a semana inteira pensando sobre. Foi mais ou menos assim: "Mas isso de as mulheres ficarem esperando um homem perfeito é culpa dos filmes da Disney".

Se a gente começar a analisar os filmes das princesas da Disney (onde sabemos que tudo é pra sempre, maravilhosamente perfeito e onde todos começam a cantar, do nada), vamos dizer, de supetão  que eles (re)produzem mulheres passivas e que ficam a vida esperando de seus príncipes encantados em cima de cavalos brancos.

Porém, se continuarmos analisando, indo a fundo nas histórias de cada uma das princesas Disney, podemos pensar algumas coisas bem mais interessantes:

Você sabe quais são todas as protagonistas dos filmes de desenho animado consideradas princesas Disney? Vou apresentá-las em ordem cronológica.

A Branca de Neve, que teve o filme lançado em 1937, é a princesa mais passiva de todas. Depois de fugir da madrasta, escapa da morte porque o caçador desiste de matá-la, encontra os sete anões que cuidam dela até o dia que ela é encontrada pelo príncipe. É muita passividade junta, não? Mas o que se passava com as mulheres na década de 1930? Veja se elas não se comportavam do mesmo modo que a Branca de Neve. Será que a Disney colocou esse padrão de pensamento e comportamento na vida das mulheres dos anos 1930 ou ele reproduziu a sociedade da época?

A Cinderella (1950), é descrita como bondosa e pura de coração. Maltratada por sua madrasta e irmãs de criação, um belo dia é surpreendida pela visita de sua fada madrinha (se não fosse ela, Cinderella ia continuar como gata borralheira pelo resto da vida). Com essa ajuda, a princesa vai ao baile e conhece o príncipe com quem se casa (depois de perder o sapatinho de cristal) e vive feliz para sempre. Passividade? Sim. Estamos em 1950 ainda. Mas já vemos algumas mudanças. É Cinderella que se movimenta para ir ao baile (antes da aparição da fada madrinha). Ela decide ir ao baile em vez de ficar esperando em casa.

A Bela Adormecida (1959) ainda é muito protegida, muito passiva. Após uma maldição lançada por Maléfica, onde é proferido que a princesa irá furar o dedo numa roca quando completar 16 anos e dormirá para sempre, Aurora é levada para morar com 3 fadas (Flora, Fauna e Primavera), que se disfarçam de humanas para proteger a princesa. Sim, após adormecer, Aurora fica a espera do príncipe, pois só um beijo do amor verdadeiro vai acordá-la de seu sono profundo. E isso é um ato de passividade. Porém, nem entramos em 1960 ainda. Gente, a Bela Adormecida se casa com 16 anos. Eram outros tempos né! Mas quem disse que Aurora era só passividade? Ela foi até revoltadinha, desobedecendo a ordem das fadas e indo procurar encrenca xD

Damos agora um pulo de 30 anos. Em 1989, foi lançado o filme "A Pequena Sereia". Ariel, filha do Rei Tritão, vive um amor proibido. Ela se apaixona por um humano. E não foi porque o príncipe Erick a encontrou. Ela ia atrás de aventuras, de algo que a tirasse do mundinho em que vivia. Ela queria viver algo diferente. Onde uma pessoa passiva faria isso? Ariel não espera pelo príncipe encantado. Ele aparece na vida dela coincidentemente enquanto ela está procurando viver algo interessante. E mais, ela rompe com o pai (revoltadinha, não segue o esperado, desobediente) e vai atrás do que ela quer, não fica esperando que alguém resolva as coisas pra ela.

Pouco tempo depois, em 1991, surge A Bela e a Fera. Bela é uma moça de vila (quase uma cidade pequena de interior) que sonha com muito mais do que o destino que é reservado pra ela. Pra salvar o pai, ela aceita tornasse prisioneira de Fera, um "monstro" com coração mole. Mas aos poucos, com a convivência, ela começa a se afeiçoar por Fera e aprende a amá-lo sem nem mesmo saber que ele é um príncipe. Ela podia ser como as outras garotas da vila, se casar com Gastão (o bobão que só sabe se vangloriar). Mas ela escolheu ficar com Fera. Eu acho fantástico quando ele dá uma biblioteca pra ela. Gente, quer coisa mais linda que isso? Ele a entende, valoriza o intelecto dela, não somente sua beleza.

Por fim, trago a Jasmine, última das princesas clássicas da Disney. Jasmine é a princesa do filme Aladdin (1992). De personalidade forte, ela não aceita as imposições de seu pai acerca do homem com quem vai se casar. E ela se apaixona pelo Aladdin antes mesmo de ele encontrar o gênio e virar príncipe. Ela se apaixona por ele no momento em que o encontra na rua, enquanto está disfarçada de empregada do palácio. E quando o pai decide que ela vai casar com Aladdin (achando que ele é o príncipe Ali), ela se recusa e somente o aceita quando o reconhece e, inclusive, faz o pai extinguir a lei que diz que a princesa só pode se casar com um príncipe legítimo.

E, além das princesa clássicas, são consideradas princesas Disney: Pocahontas (mulher forte que enfrenta tudo e todos pelo que quer), Mulan (nem preciso falar. Se disfarça de homem para proteger o pai doente de ir para a guerra e é um dos soldados mais valentes), Tiana (primeira princesa negra da Disney. Garota pobre que sonha em ser proprietária de um restaurante e trabalha incansavelmente para esse fim).

Aliás, se pensarmos bem, muitos filmes estão sendo feitos agora (inclusive da Disney) com protagonistas mulheres, fortes, independentes, decididas, etc. E isso por que? Não é porque a Disney está sendo toda moderna. É porque a sociedade está mudando, as formas de pensar estão mudando.

Fazendo essa retrospectiva dos filmes de princesas Disney, percebemos que cada uma tem a cara de sua época, reflete os costumes e a forma de pensar daquele tempo. E só porque foram produzidos em épocas diferentes da que vivemos agora, não quer dizer que não vamos mais assisti-los. Acho que dizer que a indústria Disney é responsável por iludir as mulheres de que o papel delas é esse ou aquele é meio, contraditoriamente, ilusório. É como na História. As mulheres em tal tempo pensavam de tal forma. Estudar essa época não vai nos fazer pensar e agir do mesmo modo que elas. Pra mim não faz sentido pensar dessa forma.

E você, o que acha?


UPDATE
1) As princesas da Disney e suas histórias são baseadas em contos muito antigos que eram contados de forma bem diferente do que são hoje. Mas o que é criticado e o que estou "defendendo" aqui é o modo como a Disney mostra essas histórias.
2) Alguns filmes atuais da Disney mostram críticas às princesas mais tradicionais e antigas, mostrando que hoje a coisa está diferente e o que comanda é o girlpower.