Está cada vez mais difícil acordar... [Fios de Prata - Reconstruindo Sandman]



Quem acompanha este blog sabe que não faço resenhas, o que faço é falar de como me senti lendo determinado livro e/ou o que achei dele. Houve uma boa repercussão quando falei do "O Inverno das Fadas", da Carolina Munhóz (clica aqui pra ver) e resolvi que, em 2013, iria comentar sobre mais livros.

O livro que falarei hoje será "Fios de Prata - Reconstruindo Sandman", do Raphael Draccon. Conheço o trabalho do Draccon desde de quando ele lançou "Dragões de Éter - Caçadores de Bruxas" (ainda pela Editora Planeta) e me tornei fã do escritor a partir do momento que li as primeiras palavras. Em 4 de dezembro de 2010, ele veio para minha cidade (Natal/RN) para um evento promovido em prol do GACC (Grupo de Assistência à Criança com Câncer) e me tornei fã da pessoa Raphael Draccon. Desde então tenho acompanhado seu trabalho.

Raphael Draccon é, além de autor, roteirista e responsável pelo selo Fantasy (Casa da Palavra - Grupo Leya). Ficou conhecido pela trilogia Dragões de Éter [DdE] e tem obras publicadas fora do país. (Quer saber mais sobre o trabalho do Draccon? Clica aqui).

Gosto muito do estilo de escrever do Draccon (em todos os seus livros). É uma maneira muito particular, única, de contar uma história. E por causa disso, é facilmente reconhecida por seus leitores. É uma forma leve, que faz a leitura fluir facilmente. A linguagem também é super acessível, fácil de compreender. E é bem dividida, as pausas estão nos locais e tempos certos. Tenho sempre a impressão de que estou lendo um filme (não o roteiro, o próprio filme) e isso é muito interessante. E, não por coincidência, o Draccon é também roteirista.

Mas agora, vamos falar do livro "Fios de Prata" em si. Iniciando pela capa (porque sim, olhei todos os milímetros possíveis dela), o livro já te conquista. Achei super bem feita, desde a ilustração até as fontes escolhidas para as letras.

E começa o livro. Há um prólogo, que dá uma situada acerca do que vai aparecer lá na frente pra você não se perder, pois se você não entender minimamente como funciona o Sonhar (onde se passa grande parte da história), vai dá um nó na sua cabeça.

"Fios de Prata" conta a história de Mikael Santiago, jogador de futebol brasileiro, mais conhecido como Allejo, que se apaixona pela ginasta, também brasileira, Ariana (fãs de DdE atirem a primeira pedra quem não leu Ariane Narin xD). Porém, mesmo vivendo imerso em terríveis pesadelos durante seu sono, ele nem imagina que está envolvido em uma guerra onírica de proporções imensuráveis.

Ficamos envoltos em cenários incríveis, personagens bem construídos e uma trama que te prende até a última palavra. Uma história tão bem contada que te tira o fôlego de tal forma, que passa a ser difícil parar de ler em alguns momentos. E o que foi aquele final? Eu sempre descubro tudo antes do final (com livros ou filmes) e isso me deixa de certa forma frustrada. Mas sempre me surpreendo quando se trata dos livros do Draccon. Sabe o que é ler um livro imaginando uma coisa e descobrir outra completamente diferente?

A única coisa que não gostei, sinceramente (me desculpem todos os preconceitos), foi um jogador brasileiro de futebol como personagem principal. Passei o livro inteiro (exceto as partes que faziam referência direta ao futebol) imaginando Allejo como alguém completamente diferente xD

Porém, mais do que Allejo, Ariana e os deuses do Sonhar, o livro envolve o ser humano em toda a sua complexidade. E traz assuntos que nos tocam profundamente como pessoas. Não consigo colocar em palavras tudo o que senti ao ler "Fios de Prata". Só sei que eu me encontrei em muitos personagens ali. Eu senti nojo, vergonha, raiva, alegria, angústia. Senti frio na barriga a cada encontro do casal principal. Senti medo de dormir. Mas, principalmente, senti uma enorme dificuldade em acordar (e isso vai piorando no decorrer do livro). Não no sentido exato da palavra, mas uma dificuldade em sair daquele mundo, parar de ler.

E, cada vez que eu fechava o livro, era como se meu próprio fio de prata me puxasse de volta à realidade.



P.S.: Me perdoem por não ter falado muito sobre a história do livro, mas é que sou péssima para fazer sinopses. Elas sempre ficam grandes demais (e deixam de ser sinopses xD). Quer saber mais sobre o "Fios de Prata - Reconstruíndo Sandman"? Então nada melhor que o próprio autor pra falar certo? Acesse o site do Raphael Draccon clicando aqui.

P.S.2: Quero deixar aqui expressa minha imensa alegria em ver como a literatura brasileira, principalmente a fantástica, vem ganhando espaço e público em todo o país.

O prazer com trabalho ou o trabalho com prazer

Texto inspirado em Vinícius D'Luca e Raphael Draccon.


Ultimamente, tenho pensado muito nessa questão. E discutido com algumas pessoas também. Hoje em dia, é cada vez mais comum encontrar pessoas que preferem trabalhar com o que gostam (as vezes até com um retorno financeiro menor) do que com algo que não lhes traga satisfação pessoal.

Só que temos um problema ai: há uma crença dicotômica acerca do trabalho e do prazer. Aposto que você já ouviu frases como "O trabalho é uma coisa, o prazer é outra" ou "Você tem que trabalhar para ter como pagar seus momentos de lazer".

Seguindo por essa linha, até nos parece errado trabalhar com o que gostamos. Mas por que?

Se pensarmos lá atrás, quando surge o cristianismo, surge também a ideia de que "O sacrifício traz recompensas". Tanto é que muitas pessoas fazem promessas de ficar tanto tempo sem isso ou aquilo para conseguir suas graças (ou mesmo agradecer a graça alcançada através de sacrifícios). E, do mesmo modo que o cristianismo, essa crença perdura até os dias de hoje.

Então, de acordo com isso, nosso "ganha pão" não pode nos trazer prazer, já que é preciso que haja um sacrifício fazendo algo que não gostamos para que a recompensa venha. Você transformar seu hobby em trabalho, então, é quase um sacrilégio.

Outra crença que temos até hoje e que também começou lá atrás é uma visão meio burguesa de "trabalhar duro na semana para que o lazer (e prazer) do fim de semana possa ser validado. Isso me lembra os famosos compartilhamentos de facebook com frases como "Oba, amanhã é sexta" ou "Que bom começar as férias. Ou mesmo "Sexta feira, já pode voltar". Fico triste em ver que tantas pessoas são infelizes no trabalho.

Acho ótima uma frase de Henrique José de Souza, que diz "A humanidade é infeliz por ter feito do trabalho um sacrifício e do amor um pecado". E se hoje nós somos escravos do trabalho, é porque o colocamos exatamente nesse patamar de sacrifício.

Há ainda pessoas que pensam que, ao escolher trabalhar com o que gosta, vai deixar de gostar daquilo, exatamente porque vai se transformar em trabalho. Mas isso não passa de uma crença que nos paralisa, que nos engessa e que, cada vez mais, nos leva a repetir padrões. Muitas vezes não paramos para pensar por que escolhemos determinado trabalho e por que nos encontramos estressados, cansados, esgotados.

Dai, partimos para o que nos dá prazer, que nos serve como cano de escape para os problemas da nossa vida. E ficamos nisso, muitas vezes para o resto da nossa existência. Mas vejam que se escolhermos trabalhar com o que gostamos, seremos mais felizes e renderemos muito mais não só no trabalho, mas também em outras esferas de nossa vida. Por que não dizer "Que ótimo! Hoje é segunda feira!"?

Confúcio diz "Escolha um trabalho que gostes e não terás que trabalhar nem um dia na sua vida". Mas ai vem outra questão: E se o que eu gosto de fazer "não tiver um bom mercado"? Olha, eu só te digo uma coisa. Muitas vezes usamos como desculpa algumas "verdades" que já se tornaram verdadeiros dogmas para nós. E passamos a nos esconder atrás disso.

Acredito que, quando queremos algo, corremos atrás e nos esforçamos para que dê certo. E essas crenças nos atrapalham bastante. Então por que não pesquisar seu mercado de trabalho e se adaptar a ele em vez de criar cada vez mais empecilhos entre você e seu objetivo?

Porém, as novas gerações estão (que ótimo) modificando esse pensamento. Se há alguns anos, só eram reconhecidas carreiras como "advogado", "médico", "engenheiro", "funcionário público" e "dono (ou filho de dono) de fazendas", hoje temos um leque de opções que, inclusive, podem ser tão rentáveis quanto as citadas anteriormente.

E acho isso uma super evolução. Mas ainda estamos caminhando aos poucos. Como eu disse, ainda há essa dicotomia muito forte em nossa sociedade. Ela está tão entranhada, que talvez demore um pouco para que se dissolva por completo. Mas acredito que, mais cedo ou mais tarde, essa forma de pensar vai dar lugar a outras. E outras. E assim o mundo gira.