A LOUCURA NO LEITO DE PROCUSTO (Por uma sociedade sem manicômios)


Hoje, 18 de Maio, é o dia da Luta Antimanicomial no Brasil. Então, nada mais apropriado que escrever um pouco sobre a Audiência Pública da qual participei quinta feira passada (13/05) sobre a "Luta Antimanicomial no Rio Grande do Norte", que ocorreu na Assembléia Legislativa às 9h30min da manhã e foi transmitida, ao vivo, pela TV Assembléia.

A mesa foi coordenada pelo Deputado Fernando Mineiro e teve como participantes o Diretor do Curso de Psicologia da Universidade Potiguar Alex Reimecke de Alverga, a Assistente Social Maria do Carmo Martins, o usuário da Saúde Mental e Presidente da Associação Plural Maximiliano Souza Dantas e o Professor Luís Antônio dos Santos, da Universidade Federal Fluminense.

Começou a falar o Professor Alex, que trouxe, primeiramente, uma breve explanação histórica sobre a loucura, a Luta Antimanicomial e a Reforma Psiquiátrica. A loucura, como construção histórica e social, antecede o chamado "louco". Vista nas bruxas, nos artistas e em todos aqueles que transgrediam a Ordem, a loucura é, ainda, um modo de isolamento, exclusão e segregação. Em 1987, surge a Luta Antimanicomial, que tem como lema: "Por uma sociedade sem manicômios", propõe a extinção gradativa, não só dos Hospitais Psiquiátricos, mas também dos nossos próprios manicômios, aqueles que nos aprisionam em nossos preconceitos. Fundamentada nas idéias de desinstitucionalização Psiquiátrica de Franco Basaglia, esse movimento prevê, ainda, uma transformação dos Serviços Psiquiátricos. Decorrente desse movimento tem-se a Reforma Psiquiátrica, "como diretriz de reformulação do modelo de Atenção à Saúde Mental, transferindo o foco de tratamento, que se concentrava na instituição hospitalar, para uma Rede de Atenção Psicossocial estruturada em unidades de serviços comunitários e abertos" (ex: CAPs).

A fala da Assistente Social Maria do Carmo Martins complementou a fala de seu antecessor. Ela nos trouxe, logo de início, uma questão para ser pensada. O próprio nome "Movimento da Luta Antimanicomial" deve ser um impulsionador para nos colocar em movimento. Em sua "convivência com a loucura", a Assistente Social aprendeu a escutar, a estar aberta, a não querer adaptar as pessoas ao seu próprio modo de viver. Precisamos repensar o nosso lugar no mundo e nos questionar sempre que pudermos. Não só os profissionais da saúde devem se movimentar em prol da Luta Antimanicomial, mas cada cidadão. É necessário sair de nosso lugar para enxergar o outro. É por isso que não adianta acabar apenas com o espaço físico dos manicômios. O Movimento Antimanicomial deve ocorrer de dentro para fora. Finalizando sua fala, Maria do Carmo discorreu sobre a questão da diferença, dizendo que é importante aprender a trabalhar com o diferente, pois "não se constrói com o consenso, mas sim com o dissenso".

A fala que julgo ser, não só a mais relevante, bem como a mais interessante, foi a de Maximiliano Souza Dantas. Ele falou sobre sua experiência como usuário de Saúde Mental e sobre questões importantes em sua vida. Sobre sua internação em um Hospital Psiquiátrico, Max disse "Eu entrei no manicômio ouvindo vozes e sai ouvindo vozes e dopado". Sobre emprego: "A sociedade não providencia nada para o usuário além do tratamento (...) o usuário precisa estar envolvido com algo". Sobre violência: "As vezes é a única forma que se tem para se expressar quando não te é dada outra forma". Sobre ser humano: "O usuário também é humano, é igual a todo mundo, mas o louco não pode ser só ele, tem que ser mais para ser aceito". Sobre o tratamento: "O choque, os remédios matam nossa doença, mas também matam a gente".

Apenas algumas frases retiradas do discurso de um "louco" nos fazem refletir sobre o que fizemos a tantas pessoas que sofrem com transtorno mental, em como é desumano o modo de "tratar" o "louco" dentro dos Hospitais Psiquiátricos. Manter uma pessoa dopada para que ela não nos incomode com seus delírios e alucinações é uma prática inaceitável. Essas pessoas tem o mesmo direito de ir e vir como qualquer um que se diz normal. E o que dizer dos que dão "assistência" ao "louco", arranjando uma mísera aposentadoria e lhe entregando remédios? O "louco" não pode viver como qualquer pessoa "normal"? Trabalhar, casar, ter filhos, viver... Há uma última frase de Max que gostaria de citar, já que não acho necessário mais comentários sobre sua fala, pois a mesma não necessita de explicações: "Será que a gente tem liberdade de ser livre?"

Por fim, tivemos a participação do Professor Luís Antônio, que falou muito bem acerca da Tolerância. Ele acredita haver poucas diferenças entre a tolerância e a intolerância, sendo a primeira apenas uma prática de respeito ao outro, porém sem ao menos se conhecer esse outro. As duas seriam, portanto formas de exclusão. Nós estaríamos nos relacionando com rótulos e não com pessoas (o louco, o negro, a prostituta, etc) e esses rótulos isolariam e excluiriam. O Professor falou ainda sobre a Reforma Psiquiátrica, fazendo um paralelo com a Reforma Italiana. Luís Antônio entende que esse processo deve ocorrer ao lado de outros contra exclusão, pois a exclusão do negro, do pobre, seria a mesma exclusão do louco.

Lembro-me, quando falamos em manicômios, de um mito da mitologia grega que se chama: O Leito de Procusto. Conta esse mito que Procusto, em sua casa, tinha um quarto no qual a cama era de ferro. Ele tinha o costume de convidar os viajantes para jantar em sua casa e, quando terminava a refeição, oferecia-lhes o leio de ferro para descansar. Se o corpo do viajante fosse maior do que o comprimento da cama, a parte que ficava de fora era cortada. Se fosse menor, Procusto o esticava até que se acomodasse ao tamanho da cama. Ou seja, em vez de ajustar a cama ao tamanho das pessoas, o anfitrião fazia com que estas se ajustassem às medidas da cama.

Parece-me que temos sempre o costume de fazer como Procusto com tudo o que é diferente. O que faz uma instituição como um Hospital Psiquiátrico aos internos? Seriam os manicômios leitos de Procusto? Temos certa dificuldade em lidar com as diferenças. E a loucura causa estranheza. Nosso primeiro passo ao nos deparar com algo estranho, desigual, é querer igualar ao tamanho da cama. Porque prender a loucura (o estranho) dentro de altos muros? Será que é porque não estamos prontos para lidar com nossa própria loucura, a ponto de precisar afastá-la de nós?

O mais interessante sobre o mito de Procusto eu ainda não contei. Propositalmente, é claro. Teseu (aquele mesmo do minotauro), grande Herói ateniense, foi quem acabou com o padrão criado por Procusto, quando colocou o sádico anfitrião em seu próprio leito, só que de lado, cortando-lhe as pernas e a cabeça.


"Riem de mim por eu ser diferente, e eu rio de vocês por serem todos iguais". (Bob Marley)

MÃE


- Texto feito para minha mãe, mas dedicado também a todas as mães. Em especial à minha avó, minha tia, minha madrinha, Pepé e minha Teté, que está lá em cima olhando por seus filhos.



Apenas três letras dizem tanto. Dizem do amor por seus filhos, do carinho, do cuidado. Dizem dos limites que são tão difíceis de dar, mas necessários. Dizem de atos, de estar presentes nos momentos tristes e felizes. Dizem de dar a vida a um ser e fazer parte dessa vida para além da eternidade. Mas essa palavra diz muito mais do que isso. Diz coisas que nosso vocabulário não pode expressar.




Obrigada por tudo, MÃE. Não sabes o quanto sou grata.




FELIZ DIA DAS MÃES!